TRIGÓRIN Mas o que ela tem de especialmente bom? (Olha para o relógio de pulso) Agora tenho de ir para casa e escrever. Desculpe, não tenho mais tempo… (Ri) A senhorita, como dizem, pisou no meu calo e já estou começando a ficar agitado e um pouco aborrecido. Pensamento melhor, vamos conversar. Vamos conversar sobre a minha vida maravilhosa e radiante… Pois bem, por onde vamos começar? (Depois de refletir um instante) Às vezes, há ideias que nos dominam, como quando uma pessoa fica o tempo todo, dia e noite, pensando na lua, por exemplo, e acontece que eu também tenha a minha lua. Dia e noite, uma ideia obsessiva me persegue: tenho de escreve, tenho de escrever, tenho… Mal termino uma novela, nem sei por quê, preciso logo começar uma outra, e depois uma terceira, e depois dessa uma quarta… Escrevo sem interrupção, como quem viaja numa carruagem em que os cavalos são substituídos a cada parada, e não consigo viver de outro modo. Pois então, eu lhe pergunto, o que há nisso de maravilhoso e radiante? Ah, que vida absurda! Agora estou aqui com a senhorita, estou emocionado, e enquanto isso, a todo instante, lembro que uma novela inacabada espera por mim. Vejo uma nuvem parecida com um piano. Penso: em algum trecho de um conto, terei de citar que pairava no céu uma nuvem parecida com um piano. O ar cheira a heliotrópio. Anoto depressa no pensamento um perfume adocicado, uma flor-de-viúva: usar na descrição de uma noite de verão. Agarro cada frase, as minhas e as da senhorita, cada palavra, e me apresso a trancar logo essas frases e essas palavras no meu depósito literário: um dia podem ser úteis! Assim que termino um trabalho, corro ao teatro ou vou pescar: quem sabe assim eu consiga descansar, me esquecer de mim mesmo, ah… Nada disso: dentro da minha cabeça, logo começa a girar uma pesada bola de ferro fundido, um novo tema para um conto, e logo me arrasto até a mesa e de novo tenho de escrever e escrever o mais depressa possível. E é sempre assim, sempre, nunca dou sossego a mim mesmo e tenho a sensação de que estou devorando a minha própria vida, tenho a sensação de que, para fabricar o mel que entrego, num vazio, a pessoas que nem mesmo sei quem são, eu retiro o pólen das minhas melhores flores, arranco da terra essas mesmas flores e pisoteio suas raízes. Será que não estou louco? Será que meus conhecidos e amigos se dirigem a mim como a uma pessoa sã? “O que o senhor anda escrevendo? Com que nos brindará a seguir?” Sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, e fico com a impressão de que essa atenção de meus conhecidos, os elogios, a admiração, tudo isso é uma mentira, tenho a sensação de que estão me enganando, como fazem com uma pessoa doente, e às vezes tenho medo de que eles se aproximem sorrateiramente pelas minhas costas, me agarrem e me arrastem para o hospício, como ocorreu a Popríchin, o personagem de Gógol. E antigamente, nos anos da juventude, nos bons tempos, quando comecei, escrever era para mim um martírio incessante. Um escritor menor, sobretudo quando não tem sorte, parece um desajeitado aos próprios olhos, um desastrado, um inútil, vive com os nervos tenso, esgotados; procura irresistivelmente estar perto de pessoas ligadas à literatura e à arte, sem ser reconhecido, sem ser sequer notado, sempre com medo de encarar os outros nos olhos, como um jogador inveterado que está sem um centavo no bolso para apostar. Eu não conhecia o meu leitor mas, por algum motivo, na minha imaginação, ele se mostrava hostil, desconfiado. Eu temia o público, para mim ele era uma coisa assustadora e, toda vez que eu tinha de apresenta uma peça nova, me parecia que as pessoas morenas tinham um ânimo hostil e que as pessoas loiras eram frias e indiferentes. Ah, como era horrível! Que tormento!

 

NINA Perdoe-me, mas acaso a inspiração e o mesmo processo de criação não lhe proporcionam momentos elevados e felizes?

 

TRIGÓRIN Sim. Quando escrevo, é bom. E ler as provas impressas é bom. Mas… tão logo o livro é publicado, vejo que não era nada daquilo, vejo os erros e entendo que o livro não deveria absolutamente ter sido escrito e aí fico aborrecido, me sinto péssimo… (Ri) Mas o público lê e diz: “Sim, é bonito, tem talento… É bonito, mas fica longe de Tolstói”. Ou então: “Uma obra magnífica, mas Pais e filhos, de Turguêniev, é melhor”. E assim, até a sepultura, tudo será apenas bonito e talentoso, bonito e talentoso, nada mais do que isso e, quando eu morrer e já for bem conhecido, vão passar pelo meu túmulo e falar assim: “Aqui jaz Trigórin. Foi um bom escritor, mas não escrevia tão bem quanto Turguêniev”.

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(A gaivota, Anton Tchekhov)

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