“E se produziu o milagre: ao soarem os primeiros acordes, o rapaz deixou-se cair de joelhos, como que derrubado repentinamente por uma força superior, invisível, que se manifestasse diante de nós. E seu rosto, fechado e sério, foi-se iluminando sobre um corpo que se erguia pouco a pouco, sacudido por sobressaltos sucessivos que correspondiam em tudo aos espasmódicos arquejos da partitura. E, já de pé, ele começou a descrever círculos em torno de algo que parecia fugir do controle de suas mãos. E vieram os primeiros saltos, seguidos de outro regresso ao solo, de joelhos, com todo o corpo dobrado, de costas, sobre as pernas. Movimentos de braços, horizontais e verticais. Nova projeção ascendente da anatomia, e após marcar síncopes no tablado com furioso impacto dos saltos, uma euforia de rito triunfal, onde o jovem voltou aos seus saltos, rematando o último com uma queda no mesmo centro, seguida de uma volta circular que se fechou com um gesto de exultação, de júbilo, de ação de graças, prolongado no silêncio, mais além do acorde conclusivo… Todo mundo aplaudiu, aclamou, vociferou, celebrando aquela improvisação magistral, e Teresa serviu novos refrescos – e também um rum que foi aceito com moderação. E gostaria que todos ficassem umas horas mais. Falar muito com eles. Mas Calixto, de repente, olhou as horas: ‘Companheiros: temos que bater cedinho amanhã. Portanto…’. ‘Em que você trabalha?’, perguntei. ‘Pedreiro, para servi-la’. ‘Gostaria que você viesse ver-me’. ‘O Gaspar, aqui, sabe onde me achar’.”

 

(A Sagração da Primavera, Alejo Carpentier)

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