“– Homem nenhum tem ou teve paz – disse depois. – Não há um ser humano que conheceu a si ou a alguém, ou dominou alguém e a si mesmo. Procedemos e processamos e passamos a proceder e a processar. Esse é o desafio. Inventamos uma invenção que nos inventa, ficamos alguns instantes felizes com isso. Logo o mundo acaba e vamos novamente buscar onde não há, mas pode haver. Dependemos do medo para prosseguir e do medo para estancar uma procura exaustiva. Quando chegamos à plena alienação aí sim só trabalhamos o medo, e temos uns instantes de paz quanto maior ele for. É a hora de construir hospitais e cassinos e toda a rede necessária aos seus funcionamentos. Uns são seres sem retorno e outros só de retorno. Muitos erigem sistemas tentando se safar e justificar estarem vivendo a vida de um outro para poderem se suportar. Aí mais se inventam e se infectam de estranhos, que julgamos nascerem de outra pipa, farinha de outro trigo, carne de outras esferas, esferas de um outro mundo cuja chave vamos procurando. Nossa infância está vencida e mesmo assim nos contagia. A maior religião no nosso tempo é a que nos propõe um retorno. Diz que a meta está no começo, a salvação é a aceitação. Ela constrói um tempo sem utopia e sem esperança fora da recordação, ela se propõe a educar os cinco sentidos para a lembrança. Ela não admite o recém-homem, o que veio à luz no trilho pantanoso de uma noite irretomável, instantânea. O olho da tormenta está em todos nós, antes e depois das classificações e dos sistemas. O meio do homem nasce fora dele e dentro dele, e se fora dele está seu fim, dentro deve estar seu começo. Quando iniciou meu começo, anunciei. Quanto se avizinhou meu fim, avisei. Ninguém nos notará. Nem o nosso trêmulo fundo do olhar. É interessante esse exercício de passar pelo eterno, de vender alguma coisa realmente valiosa. É uma superação, uma superação temporária como tantas outras, e única como nenhuma. É um despedir-se, um despir-se, é um despistar-se, e é o único começo, que se faz pelo meio. Se criarmos diferentes pistas de memória não estaremos presos a um único tempo, nem a tanta idade, nem a uma única memória básica. A boa educação é um disfarce seguro. A boa educação trabalha sobre nossos sentidos. Os sentidos devem ser inaugurados todos os dias. Quanto menos necessitarmos da nossa memória estrutural, melhor. Em poucas horas podemos ter novas totalidades, vivas e difusas. Saber que a nossa obra não sobreviverá, que o nosso longo texto regressivo se apagará conosco, em um instante de reviração modesta e breve. Para isso é interessante construir absurdos durante toda a vida e escolher a melhor loucura a ser educada. O absurdo reanima, a ousadia sem sentido nos sintoniza sem sabermos com o quê. A velhice é uma saturação de memória, de verdade própria, de falta de lugar, não de tempo. Lugar para novas coisas é a vida pela frente. Falsos lances para uma vida de verdade até o fim de todos os começos. Encharcados de inícios e sem fins, estilhaçados dentro de nós, não nos dando trégua e nos cobrando novos e novos e novos momentos. Quando ficarmos insuportáveis, deveremos dormir. Sonhando, exercitando a lucidez, aquela lucidez de que fala Williams:  senhoras, levantem a barra de suas saias, vamos atravessar o inferno. Dentro de nós está o códex, a cera virgem e o estilo para que se narre o que se é e o que se está.”

 

 

(Assim na terra, Luiz Sergio Metz)

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