“Gosto desse vermelho. Tive uma caixa de laca chinesa certa vez. Guardava os alfinetes de gravata e as tais abotoaduras de platina. Era linda a caixa. Comprei-a na Via Venetto. Quando era aquele outro. Aquele das abotoaduras. Quando era amigo de Karl. Quando jogava polo. Quando era rico. Quando ainda pensava que haveria tempo suficiente para escrever, quando fosse mais velho sim, escreveria… E a futilidade me encharcava a carne, os ossos, intenso de futilidade eu fazia blague: Bewusstsein? Soa chulo e besuntado. Depois a Bewusstsein foi crescendo e não me deu mais trégua. Consciência de estar aqui na Terra, e não ter sido santo nem suficientemente crápula. De inventar, para me salvar.”

 

(Cartas de um sedutor, Hilda Hilst)

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