Já participei de duas antologias nas quais a proposta era escrever tendo como objeto de partida uma música: a primeira foi o livro Como se não houve amanhã, antologia de contos baseados em música da Legião Urbana (escrevi com base na música Sagrado Coração), e a segunda foi O Livro Branco, que propunha aos escritores produzirem com músicas dos Beatles (escolhi I am the walrus).

 

Participo agora da antologia Cobain, que está sendo lançada nesta semana em comemoração aos 25 anos do Nervermind, antológico disco do trio de Seatlle. O livro (virtual e gratuito) é composto por contos baseados em todas as músicas do disco e também por contos que partem de músicas de outros discos da banda, que estão organizados em “Bonus Tracks”. Escrevi o conto Estuário inspirado pela música Serve the Servants (do disco In Utero, quarto e último da banda).

 

O livro está disponível nestes links:

 

AMAZON: bit.ly/AmazonCOBAIN

iTUNES: bit.ly/itunesCOBAIN

KOBO: bit.ly/koboCOBAIN

ISSUU: bit.ly/issuuCOBAIN

 

 

Recomendo a leitura de todos os trabalhos, pois estão impecáveis.

 

Aliás, a leitura dos contos me faz perceber que existem inúmeras possibilidades de se escrever a partir de uma música.

 

Uma solução bastante usada é inserir a música (ou o disco) no universo dos personagens. Dessa forma, em uma situação específica do enredo, por exemplo, os personagens estão ouvindo a música sobre a qual versa o texto. Isto é, como se fosse uma presença física, a canção atua diretamente no enredo, pontuando uma situação ou mesmo desencadeando ações que terão consequências.

cobain

Em Estuário – assim como nas demais antologias em que participei – fiz uma opção diferente. Em vez de utilizar a canção como elemento do enredo, tentei criar um enredo que signifique a música (ou parte dela, como foi o caso). Essa escolha Implica um exercício interpretativo, que, portanto, não é único, uma vez que músicas permitem inúmeras interpretações. No entanto, acredito que essa escolha possibilite um mergulho mais profundo naquilo que trata a música, pois o exercício interpretativo ultrapassa as palavras para buscar referências também nos aspectos musicais.

 

Quando Sérgio Tavares me convidou para participar da antologia, eu já estava escrevendo o conto Estuário. A premissa nasceu, na verdade, de uma cena do documentário Lemmy: o lendário vocalista do Motörhead está sentado no sofá ao lado do filho, Paul, que, por vezes, demonstra certo constrangimento. Com base nessa cena, construí as linhas centrais de Estuário, que seria o reencontro entre pai e filho, sendo este a antítese daquele. A oposição visceral entre eles certamente renderia um ressentimento e, na iminência de algo que mudará a vida, o filho se propõe visitar o pai.

 

A caracterização dos personagens estava relacionada à música. O pai seria o guitarrista de uma obscura banda psicodélica brasileira dos anos 70 e o filho seria a pessoa mais normal do mundo, com trabalho das 8h às 18h, casa e carro na garagem. O abismo entre eles é entendido como abandono e uma impossibilidade de diálogo. O filho decide reencontrar com o pai após anos de silêncio a propósito de um documentário que está sendo gravado sobre o pai e para o qual foi convidado a gravar um depoimento.

 

O convite para a Cobain acrescentou um elemento significativo. Tão logo decidi que escreveria a partir de Serve the Servants, sobretudo por causa do trecho que serviu de epígrafe ao conto (I tried hard to have a father / but instead I had a dad), notei que não apenas o tempo ou as diferenças marcariam as distâncias e as dificuldades entre os personagens, mas também esse senso de si: a figura do pai acentua no filho aquilo que ele entende por si (uma pessoa sensata, correta, adulta) ao mesmo tempo em que a figura do filho acentua no pai o que ele sabe que os outros veem nele (um músico hippie eternamente adolescente).

 

Ademais, pelo conto se tratar de um (re)encontro tortuoso e delicado, tão violento quanto sutil (toda tensão está concentrada naquilo que os personagens calam ou recalcam) optei pela palavra estuário como título, que é o encontro entre o mar e o rio. Sinto ser uma imagem interessante, potencialmente poética e significativa da história que pretendia contar. Afinal, é um encontro que, se violento, também é cheio de possibilidades e caminhos. E a consequência desse entendimento me presenteou com o desfecho do conto, surpreendente a mim mesmo.

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