limabarreto1914

“Diante do rosto ainda moço e saudável de Lima Barreto, não sentimos pena. Mesmo chocados – o registro foto­gráfico de uma violência cometida contra alguém choca sempre, mesmo que não seja essa a intenção da foto –, não sentimos comiseração ou dor. É mais provável que partilhemos com o interno de uma raiva surda, impotente. O longo caminho percorrido desde Guaratiba, onde fora recolhido, até a praia Vermelha parece ter curado a bebe­deira. Não há traços de delírio, exceto talvez pelos olhos com dificuldade em se abrir completamente, num olhar sampaco. Mesmo assim, Lima olha firme para a câmera, com os lábios duros. Mais que um paciente, pode parecer um revolucionário diante do pelotão incumbido de fuzilá­-lo. Lembremos do campo semântico que cerca a palavra “câmera”, como mostra Susan Sontag: máquina que aponta e dispara. Mesmo o traje que lhe fora entregue ao recolhe­rem suas roupas tem, na foto, um ar antes de uniforme do que de pijama de hospital.”

 

Recomendo fortemente a leitura do artigo O Lima Barreto que nos olha, de Beatriz Resende, publicado na revista Serrote.

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