Por João Nunes/ Especial para o Correio Popular (15/02/2016)

Um dia antes de Maurício de Almeida completar 34 anos, no começo de janeiro, nos encontramos para esta entrevista cercados pelas aprazíveis alamedas das superquadras da Asa Sul, em Brasília. A fisionomia do garoto que conheci dez anos atrás quase não mudou e a razão talvez esteja no sofisticadíssimo senso de humor que o faz, em meio à dramaticidade da criação de um texto, rir como se estivesse brincando. Brincadeira que ele faz, por exemplo, quando lhe aviso que, mesmo sendo amigo, haverá questões escorregadias, ele pergunta se não posso adiantar o gabarito das respostas e ri deliciosamente. De onde vem esse riso? Ele ensaia um argumento ao dizer que se trata de riso nervoso. De fato, ele está nervoso (e eu também) porque nunca experimentamos os papéis de entrevistador e entrevistado. Mas ao final da conversa, quando estamos totalmente relaxados, peço-lhe para mencionar uma utopia e a resposta é desconcertante: “As pessoas obedecerem a ordem dos números da poltrona ao descer do avião”. Ri descontraído e me contagia. De onde vem esse riso?

 

Minha inquietação procede porque parece difícil conectar tal humor com uma literatura repleta de personagens marcados pela angústia e enredados na impossibilidade que geram situações aflitivas e incômodas. Esta característica se observa em Beijando Dentes (Record, 2007), livro de contos ganhador do Prêmio Sesc, e aparece de modo incisivo no primeiro romance que acaba de sair pela Rocco, A Instrução da Noite (141 págs., R$ 19,50).

 

E, enquanto ele articula a resposta, emendo duas perguntas complementares: por que você não usa humor nos escritos e de onde vem a angústia dos personagens que cria? O campineiro formado em antropologia pela Unicamp, que trabalha no Distrito Federal e sente saudade da cidade onde nasceu na mesma medida em que se diz confortável na capital do país, titubeia em um primeiro momento para, em seguida, assegurar convicto: “Vêm do mesmo lugar, a diferença está na aproximação”.

 

Convence-me que se trata de riso autoirônico e nervoso, nunca a gargalhada, riso desesperado que surge como maneira de se acercar da dor e garante que não sabe escrever humor porque leva a literatura a sério demais. “Parece que intentar o riso vira o fim em si mesmo”, sugere. Além disto, ele argumenta que não tem a sofisticação das pessoas que admira, como Woody Allen e a turma do Seinfield, “que são engraçados, mas tratam de temáticas sérias”. Admite fazer piadas de besteiras do cotidiano, mas não sabe usá-las quando escreve. “Tenho medo. Prefiro correr o risco de ser piegas, que não sou, na escrita pesada, a correr o risco de ser pueril, que eu sou, ao escrever humor pueril”.

 

Tornar-se escritor demandou desejo ou necessidade? Eu pergunto e a resposta sai clara e rápida: ingenuidade. Segundo ele, é quixotesco lançar livro (“produto defasado”) num país em crise econômica e no qual ninguém lê nem tem interesse. E desejo e necessidade são muito parecidos, pondera, mas a ingenuidade atrelada ao desejo e, uma vez incorporada, serve à necessidade também, pois se trata de ferramenta para organizar coisas. Diz compreender isso no processo da escrita e assegura estar buscando sair um pouco do próprio umbigo e entender coisas maiores do que ele. “Não acho minha experiência relevante, mas entendo que ela pode servir ao outro quando alguém se identifica com o que escrevo, vislumbra algo e encontra ali uma questão na qual nunca parou para formular”.

 

Campinas como cenário

Ter Campinas como cenário do romance, segundo ele, reflete o falar da própria aldeia, o princípio concebido pelo russo Leon Tolstói (1828-1910). Afirma ter sido necessário sair da cidade para tomar consciência de onde veio. “Por isto odeio e amo Campinas. Não há como pensar diferente, minha história de vida está lá e, mesmo vivendo fora, ela é minha referência quando tento entender um pouco de mim, cada lugar por onde passei traz minha história; aqui comprei um livro, ali experimentei um momento triste. Portanto, era inevitável ela aparecer no romance, mesmo não sendo de modo explícito”. Eu complemento dizendo que nada mais natural. Nelson Rodrigues, pernambucano assumido carioca, falava do Rio, Anton Tchecov (mesmo não sendo moscovita) escrevia sobre Moscou. Por que não Campinas? Se não está no mapa literário, no momento em que alguém a coloca como cenário de uma ficção ela passa a existir. Como a cidade começou a existir musicalmente com Carlos Gomes.

 

Maurício se espanta com a reação da irmã ao reconhecer a escultura da capa de A Instrução da Noite. Sim, qualquer campineiro que passe em frente ao Museu de Arte Contemporânea (Macc) vê a escultura das andorinhas assinada pelo artista plástico Lélio Coluccini (1910-1983), em referência a um pássaro intimamente ligado à cidade e que hoje se ausentou dela. Pois foi quando chegou a capa que ele se deu conta do quanto Campinas estava no livro. A casa do protagonista, por exemplo, se localiza no marco original da cidade na praça em frente à Igreja do Carmo. “Relutei em nomear, que é uma forma de negar, mas era Campinas. Estranho se dar conta do seu lugar no mundo; sou eu, queira ou não, arrasto o “r” do interior, nasci na Maternidade de Campinas, torço para a Ponte Preta”.

 

Campinas também lhe deu o tema da impossibilidade presente nos dois livros. Quero saber qual a raiz do interesse por esse tema? Em Campinas, ele conta, escreveu Beijando Dentes e começou A Instrução da Noite, ou seja, a gênese de ambos está bem próxima. Foi na época do final do curso de antropologia e ele não sabia o que fazer, não trabalhava, não tinha para onde ir e se sentia pressionado “por sentimentos extremos”. Hoje, assume que havia certo exagero, espécie de “hipérbole juvenil”, mas se sentia preso nas impossibilidades. O mote do romance, um homem diante de uma porta fechada sem saber como abri-la, era precisamente a situação que estava vivenciando. Curioso que no próximo livro, também romance, Maurício trabalhe justamente com o tema inverso, o da possibilidade. “Ao sair de Campinas, compreendi que poderia abrir a porta”.

 

Segundo ele, nenhum escritor gosta de explicar o próprio livro, mas admite que precisa aprender falar sobre, apesar de ser péssimo vendedor de si mesmo e de não gostar da figura do intermediário. “Leia o livro e tenha a própria visão, não a do autor; passar pelo processo da leitura permite que nos entendamos melhor”, provoca. A graça, acredita, reside no ato de ler, entender e fazer as próprias conexões com o que está lendo. Além disso, agrega, entre a leitura do autor e a do leitor há um abismo.

 

“Tenho dificuldade em dizer o que escrevi porque minhas histórias são mínimas e temo desanimar quem vai ler”. E conta um episódio recente envolvendo uma tia. Esta quis saber qual era a história do livro. A explicação: é um romance, tem um cara, a irmã dele, o pai aparece e há uma porta. “Não há reviravoltas, as ações são mínimas porque me interessa o que está atrás da ação, o que levou a ela. Neste caso, um homem que não consegue sair da casa. Veja, não tem apelo enquanto narração e fica pobre se eu tentar contar. O que me interessa é o que se passa na cabeça do personagem, entender por que ele não consegue abrir a porta”.

 

Exibicionismo e marketing

Consciente do mundo em que vive Maurício de Almeida também age de modo refratário ao exibicionismo e o marketing pessoal, dois símbolos do nosso tempo. E, mesmo sendo jovem e aberto à tecnologia, desconhece como usá-la ao seu favor. “Não tenho a menor ideia”. E cita o americano Ernest Hemingway (1899-1961), que se recusou receber pessoalmente o Nobel. No discurso lido por outra pessoa, afirmou que o que tinha para dizer estava nos livros dele. Quando o escritor morre, argumenta Maurício, fica a obra e, mesmo em vida, ele não está junto ao leitor quando este o lê; portanto, o livro tem de se sustentar por si, não depender do escritor; não interessa o que o escritor diga, interessa o que a pessoa vai ler. Tanto que gosta quando o tcheco Milan Kundera (1929) se identifica não como escritor, mas como romancista. “Mas o fato é que se inverteu a chave”, declara. Lançam livros de pessoas conhecidas que têm canais na internet com quatro milhões de acessos para serem elas mesmas; importante passou a ser a figura do autor; é ele quem leva o livro e não ao contrário.

 

Usa uma hipótese para ilustrar o que fala e imagina um youtuber de uns 15 anos escrevendo sobre um velho e aposta que os leitores não iriam gostar. Tal procedimento, segundo o escritor, “é estranho porque enjaula o autor, que escreve as mesmas coisas, eclipsa o que ele tem a dizer, pois está preso ao personagem criado”. E se indaga com uma questão que soa engraçada, porém, é muito complexa. “Vou falar o quê diante da câmera?” O desinteresse pode ser um modo negativo de ver o panorama que se apresenta, contudo, ele aborda o que seria o lado positivo da questão, pois escrever, segundo ele, permite refletir sobre a vida. “O livro é a síntese depurada de um processo de reflexão e reflexão exige tempo, paciência, dedicação e não é divertido, não faz rir”.

 

Conclui que é uma tarefa bastante ingrata pensar na possibilidade de usar as mídias sociais dentro do padrão estabelecido, pois não tem espontaneidade exigida frente à câmera, se sente inábil em relação à tecnologia e tampouco lhe interessa aprender (“me custa tanto aprender escrever”). “O veículo me serve e preciso me apropriar dele, mas a linguagem não. Como faço para que minha história mínima tenha apelo nas mídias sociais? Não sei. É uma indisponibilidade minha e eu quero achar um jeito que represente o que faço”.

 

Literatura

Maurício reafirmou que não gosta de falar sobre o que escreve e não deve gostar das autodefinições. Ainda assim, arrisco perguntar que literatura é essa de A Instrução da Noite e como a escrita dele se insere no mundo literário de hoje? Contrariando minha expectativa ele fala numa boa. Primeiro se situa: é difícil responder, porque não dá para definir qual é o mundo literário em que estamos. Depois, repete algo que a humanidade já passou em outros momentos, o de transição, especialmente com a internet. “Ela não é mais uma ferramenta, virou realidade”. Prossegue dizendo que a internet faz parte da nossa vida e causou mudanças que ainda não sabemos avaliar como isso afeta a literatura, mas é certo que esta se dilui e que, hoje, todo mundo escreve e publica. “Só que eu me sinto démodé, não ultrapassado, mas meu livro parece pedir para se desligar o celular, ninguém conseguirá lê-lo de uma vez, cada frase foi pensada com uma razão de ser”.

 

Dá uma pausa na reflexão para afirmar que não sabe onde se encaixar como escritor e sugere que citar os autores que o influenciaram talvez aponte uma pista. Alguns deles: Clarice Lispector, Osman Lins, Lobo Antunes, Roberto Piva, Hilda Hilst, “sobretudo Hilda”. Todos têm em comum a questão psicológica dos personagens. “Admiro a maneira como procuram entender a pessoa no tempo do que descrever o tempo da pessoa. Que o mundo está passando por grandes transformações a gente sabe, mas como isso se processa nas cabeças das pessoas, qual o impacto, quais os desejos e os sentimentos delas, como lidam com isso”.

 

Por fim, pergunto se, quando esboçou os primeiros escritos, ele pensava em literatura como opção ou tentativa (se der certo, ok, se não procura outra coisa)? Ambos, ele responde. Porque era uma descoberta. “Parece que bateu de cara e eu me encontrei; se não escrevesse livros e publicasse eu escreveria coisas. E ao descobrir a literatura percebi que ela me servia me ajudava pensar, apresentava questões que eu não conseguia elaborar. E, no fim deu certo, a tentativa vingou até agora”. Ao final, Maurício de Almeida faz uma autodefinição, uma entre muitas outras, mas que revela um pouco quem ele é. “Escrever é meu jeito de entender as coisas, pois penso em termos de palavras; palavras certas para coisas certas, eu organizo as coisas com as palavras”.

 

Eu encerro impressionado com a facilidade com a qual Maurício de Almeida consegue elaborar o pensamento com clareza, precisão e profundidade, do mesmo modo que exercita uma escrita densa e sem concessões. E ainda é capaz de cunhar boas frases (que se espalham por este texto), como esta que também lhe serve de definição: “Escrever continua a ser uma tentativa. Literatura será sempre uma tentativa”.

 

Pingue pongue com Maurício de Almeida

Um livro

Crônica da Casa Assassinada (Lúcio Cardoso)

Um escritor

Marcel Proust

Um personagem

A protagonista de A Paixão Segundo G.H. (Clarice Lispector)

Um grande momento da literatura

No encontro entre Pedro e o irmão André, aquele pede que este abotoe a camisa (Lavoura Arcaica, Raduan Nassar)

Uma epígrafe

De A Instrução da Noite: “Era uma tal sensação de paz: não ser mais do que um fantasma dentro de outro fantasma” (Longa Jornada noite Adentro, Eugene O’Neill)

Um projeto literário

O novo livro que estou escrevendo

O próximo passo

Escrever um livro no qual eu me entenda como dentro de um contexto maior

Uma utopia

As pessoas obedecerem a ordem dos números da poltrona ao descer do avião

Um time de futebol

Ponte Preta

 

(Publicado originalmente em Sessão de Cinema em 15/02/2016)

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