“Povoada por duas categorias de pessoas, os negociantes e suas vítimas, a cidade só se deixa habitar de modo doloroso por aquele que ali aprende e estuda, de uma forma que há de molestar toda e qualquer natureza, ou mesmo de perturbá-la e destruí-la com o passar do tempo, uma cidade, portanto, muitas vezes habitável apenas de modo pérfido-letal. As condições climáticas extremas, por um lado, sempre irritantes e enervantes, de todo modo insalubres a quem a habita, e, por outro, a arquitetura salzburguiana, sob tais condições climáticas atuando sempre de forma devastadora sobre o estado de espírito das pessoas; o clima pré-alpino, que, tenham esses pobres coitados consciência disto ou não, é decerto prejudicial à saúde, oprime com consistência cabeça, corpo e tudo mais desses seres inteiramente expostos a semelhantes condições naturais, produzindo sem cessar, e com incrível desconsideração, moradores irritantes, enervantes, insalubres, humilhantes, ofensivos, dotados de grande vileza e baixeza – tudo isso, enfim, segue gerando salzburguianos, os naturais dali e os que para ali se mudaram, todos perseguindo a estreiteza de suas obsessões, de seus absurdos, da própria estupidez, de seus negócios e melancolias brutais, fontes inesgotáveis de renda para todos os médicos e todas as funerárias possíveis e imagináveis, entre os muros gélidos e úmidos adorados por predileção, mas odiados com a força da experiência vivida pelo aprendiz e estudante que fui nessa cidade trinta anos atrás”.

 (Origem, Thomas Bernhard)

Share Button