“Ei, você também, doutor”, ele disse, e seu rosto, que vi então ser o de um homem-bebê, de uma criancinha balofa, beberrona e rancorosa de quarenta anos, se dissolveu num sorriso desmesurado, indicando que, na minha primeira incursão profissional, eu havia estabelecido uma transferência positiva. Ele de fato fizera aquilo, compreendi, aniquilara o pai. Ele pertencia àquela horda primitiva de filhos que, como Freud gostava de conjecturar, possuem a capacidade de anular o pai à força – que o odeiam e temem, e que, após derrotá-lo, prestam uma homenagem a ele devorando-o. E eu pertenço à horda dos que não conseguem dar um soco. Não somos como os outros, não sabemos fazê-lo, com nossos pais ou com qualquer pessoa. Somos os filhos horrorizados pela violência, incapazes de infligir dor física, ineptos para dar murros ou pauladas, inúteis quando se trata de pulverizar até mesmo o mais merecedor dos inimigos, conquanto não nos falte a turbulência, a cólera, até mesmo a ferocidade. Possuímos dentes como os canibais, porém eles estão lá, fincados em nossas mandíbulas, apenas para articularmos melhor os sonos que emitimos. Quando causamos devastação, quando destruímos, não o fazemos com punhos furiosos ou planos impiedosos, ou surtos de insana violência, mas com nossas palavras, nossos cérebros, com a capacidade mental, com tudo aquilo que gerou o comovente abismo entre nossos pais e nós – e que eles próprios suaram sangue para nos dar. Encorajando-nos a seremos tão espertos e tão yeshiva buchers, mal sabia que estava nos equipando para deixá-los isolados e perplexos diante de toda nossa vigorosa algaravia”

(Patrimônio, Philip Roth)

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