“Supõe-se que o indivíduo criador (lutando contra o seu meio) experimente uma alegria que contrabalance, quando não chega a superar, a dor e angústia que acompanham a luta para se expressar. Vive em sua obra, dizemos. Mas esta categoria única de vida varia imensamente com o indivíduo. É apenas na medida em que toma consciência de mais vida, da vida abundante, que se poderá dizer dele que vive em sua obra. Se não há realização, não haverá propósito ou vantagem em trocar a vida imaginativa pela existência puramente aventurosa da realidade. Todo aquele que se eleva acima das atividades da rotina diária o faz não só na esperança de ampliar seu campo de experiência, ou ainda de enriquecê-lo, mas também de apressá-lo. Apenas nesse sentido consegue a luta ter algum significado. Aceite-se esta tese e a distinção entre fracasso e sucesso é nula. E é isso o que todo grande artista aprende em sua trajetória: que o processo em que se envolveu tem a ver com uma outra dimensão da vida, que ao se identificar com esse processo ele aumenta a vida. Nesta visão das coisas ele se acha permanentemente afastado – e protegido – daquela morte insidiosa que parece triunfar em torno de si. Adivinha que o grande segredo nunca será apreendido, mas incorporado em sua própria substância. Tem que se fazer uma parte do mistério, viver nele, bem como com ele. Aceitar é a solução: é uma arte, não um desempenho egoísta da parte do intelecto. Através da arte, então, é que finalmente se estabelece o contato com a realidade: esta é a grande descoberta. Aqui tudo é jogo e invenção; não há um piso sólido de que se lançariam os projéteis que atravessariam o miasma da loucura, ignorância e avidez. O mundo não precisa ser posto em ordem: o mundo é a encarnação da ordem. Cabe a nós nos colocarmos em harmonia com esta ordem, conhecer o que é a ordem do mundo, distinguindo-a das ordens utópicas que desejamos impor uns aos outros. O poder que não mais possuímos, a fim de estabelecer o bem, a verdade, e a beleza, viria a ser, se pudéssemos possuí-lo, apenas um meio de nos destruirmos uns aos outros. É muito oportuno que sejamos impotentes. Temos primeiro que adquirir visão, depois disciplina e aceitação. Até que tenhamos a humildade de reconhecer a existência de uma visão além da nossa, até que tenhamos fé e confiança nas forças superiores, os cegos conduzirão os cegos. Os homens que acreditam que trabalho e cérebro conseguirão tudo, ficarão decepcionados para sempre pela mudança quixotesca e imprevista dos acontecimentos. São os que se desapontam perpetuamente; não mais capazes de culpar os deuses, ou Deus, voltam-se contra seus companheiros e dão vazão a sua raiva importante gritando: “Traição! Estupidez!” e outros termos vazios”.

 

(Sexus, Henry Miller)

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