Depois de um grande esforço cognitivo ou ao acaso de uma ideia aleatória, ocorre o entendimento de que foi e sempre será em vão todo ato voltado àquele fim específico, todo investimento intelectual e sentimental àquele objetivo desde sempre óbvio e inescapável, toda insônia e debater-se causada por aquele incômodo que sempre lhe perseguiu e aporrinhou. Um grande alívio mistura-se a um sentimento de reprovação, uma imensa vergonha por ter insistindo tanto em algo tão errôneo, e, acima de tudo, um refluxo inevitável: nada disso implica na extinção ou mesmo no esmorecimento do incômodo. Ao contrário, agrava-se – não há mais um objeto específico que justifique suas falhas e traumas, não há mais a quem culpar ou razões para sonhos de evasão e fuga. Afinal, esse entendimento coloca gravidade ao desbunde daquela raiva, pesa as escolhas, afunila caminhos até o ponto em que a razão e a solução desse incômodo depende única e exclusivamente de você.

 

Um imenso senso de injustiça acomoda a revolta dessa constatação, um blasfemar toma toda boca, suas palavras são agressões desvairadas e todo seu desejo se faz vingança e toda energia vital que lhe mantém vivo (e, se utilizada normalmente, possibilita o levantar-se pelas manhãs, os sorrisos às sextas-feiras, o amor nas brechas da realidade) toda energia vital é direcionada ao movimento incontrolável da auto-aniquilação. E não por acaso você se descobre num esfaquear frenético e incontrolável desses murros que não nocautearam coisa alguma e que (aparentemente) se voltaram contra você, um esfaquear impulsivo, dilacerador, revanchista e absolutamente incapaz de estancar ou retroceder essa terrível queda do paraíso da ilusão, imolação divina à ascensão da consciência.

 

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