Assim como a execução, o princípio é simples: você necessita algo a ser remendado, uma calça rasgada, dois retalhos de pano ou um trauma de infância. Feitas as medidas necessárias e postas as partes lado a lado, faz-se necessário que você possua linha (qualquer cor e diâmetro, a gosto) e uma agulha ou um terapeuta (ou psicanalista ou qualquer coisa que o valha, independe a linha teórica). O mecanismo que rege toda execução é o mais instintivo possível: para unir uma parte a outra, você deve prestar-se a perfurar um lado com a agulha a fim de que a linha adentre a parte e fazer o mesmo com a outra parte, num entrelaçado crescente que se assemelha à disposição visual do cadarço de um tênis. Importante destacar a necessidade de não realizar qualquer nó na ponta final da linha, pois isso implicaria num exercício finito e talvez sem efeito. Assim, para fatos aparentemente dispersos, retalhos de memórias e dores, você deve providenciar uma narrativa de aproximação e relação entre esses eventos, costurando-os em evidências e pistas que os unam. Esse procedimento deve ser repetido até que se esgotem as partes ou a linha ou as evidências. Há de se notar que em raros casos esgotam-se as partes antes da linha ou das evidências, que, afinal, não possuem qualquer nó que os atem ao início da trama, apenas seguem de ponto a ponto aberto, abandonando-os sem pudor com o trançado em ziguezague de seu rabo de cobra no rastro da agulha ou terapeuta. Encerradas as partes, que continuam próximas e soltas, ou a linha ou o terapeuta, que continuam dispostos, você deve reiniciar o processo, posto que as partes serão já outras, a linha de diferentes espessuras e cores e os traumas distorcidos daqueles iniciais (traumas de infâncias costumam ser mais profícuos nessa metamorfose e, portanto, rendem mais). O processo como um todo se assemelha àquele procedido exaustivamente por Penélope, que, mesmo sem Ulisses ou Odisseu, presta-se ao mesmo fim: protelar o encontro com a vida.

 

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