Por uma questão nostálgica e também numa tentativa de fazer justiça por não ter dinheiro em 2001 quando o Foo Fighters veio ao Brasil pela primeira vez e justamente no dia do seu aniversário (que, coincidências astrológicas à parte, é o mesmo dia do aniversário do Dave Grohl), você julga ser uma boa ideia ir ao show do Foo Fighters quase quinze anos depois daquele fatídico parabéns pra você e quase vinte e cinco anos depois de ouvir e ouvir e ouvir incansavelmente o Nevermind. E já durante as tais duas horas e quarenta de show você refaz um eureca ao comentar que foi justamente naquela certa fase daquela certa música que você desistiu de acompanhar a carreira deles porque simplesmente ficou de saco cheio.

 

Nas semanas subsequentes ao show, naquele ânimo inexplicável que causa vê-los assim tão próximos e também numa tentativa de reviver aqueles primeiros momentos em que você viu o clipe que I’ll stick around e big me na mtv que só passava na casa da sua avó (que encanto havia afinal numa mamona gigante sobrevoando o ensaio da banda ou numa proto-propaganda de balas?), você recupera virtualmente toda discografia do FF numa disposição de ouvi-la inteira. Tudo começa com aquele ânimo bacana, air guitar pra lá, air drums pra cá, o som de this is a call ecoando pela casa, um ótimo sábado rolando. Mas, naquela dispersão que sem querer(?) acontece, o disco vai e você não percebe, e tanto não percebe que ele nunca acaba.

 

Então, você pula para The colour and the shape e eis que sua atenção é recapturada, um sentimento antigo volta um pouco transformado: você é remetido a certas lembranças do passado que comovem apesar da merda que era esse tal passado (ou comovem justamente por isso, maldita autocomiseração) e, por isso, pula aquelas músicas que você não ouvia nem quando comprou o CD naquela loja que não existe mais no centro da cidade e ouve my hero e pula para everlong (que você considera a melhor música deles, não tem jeito) e, para não desperdiçar o restante do disco, tenta se emocionar com walking after you, mas não rola, nunca rolou.

 

Em There is nothing left to lose você só ouve aquelas que tinham uns clipes engraçados, pois tudo que você ouviu desse disco se resume àquilo que passava na televisão. Do mesmo jeito, só que mais rapidamente, você alcança One by one e se lembra que comprou esse disco numa livraria apenas por ter todos os discos anteriores. E se lembra também que, tal como no show e exatamente como anos antes, essa é a fase da banda que você parou de acompanhá-la por simplesmente ficar de saco cheio.

 

In your honor e Echoes, silence, patience and grace: blá blá blá.

 

Afinal chega Wasting light e você se lembra das muitas noites em que dormiu vendo àquele show para ninguém no estúdio deles e de repente aquele gostinho de uísque volta à boca, assim como o terror daquelas noites insones, a solidão daqueles dias, a grande sensação de nada que o engolia naquela época. E mesmo esse disco, que é uma memória recente, que serviu a algumas situações da sua vida, mesmo ele você pula aquelas músicas mais xaropes para ouvir logo aquelas que eram legais (e elas não são mais tão legais assim), mas se questiona ao final de walk: me representava? Talvez fosse só o uísque ou aquela solidão terrível que pode se transformar uma noite de terça-feira. Ao menos Arlandria continua sendo uma música legal, você pensa sem saber o por quê.

 

E a paciência foi pro espaço. O estômago pedindo almoço, o sábado quente, quente, e pouco resta para a audição de Sonic Highways, que é recebido com o mesmo entusiasmo que você aguardava a exibição da série na tv: depois de perder o terceiro capítulo, você nunca mais foi atrás de ver as coisas perdidas e certeza que o link para ver a série online ficará na lista de links pendentes e que há de se perder na confusão de tanta noite e tanto dia. Depois de oito pedaços de música (mentira, sete: você ouviu Something from nothing inteira com aquela sensação de que vinha ouvindo essa música nas últimas horas), um grave silêncio e certo um incômodo que você identifica como sendo consequência à estúpida vontade que lhe fez cutucar a nostalgia com vara curta e, convenhamos, isso nunca levou ninguém a lugar nenhum.

 

 

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