Os horários dos dias úteis são sempre os mesmos como se fossem hábitos orgânicos e os compromissos ordinários como se fossem inadiáveis: acordar contrariado com o despertador, levantar contrariado com o sono, tomar banho contrariado com a água, tomar café contrariado com o amargor, arrumar as coisas contrariado com a ordem e sair de casa. Entretanto, certos dias se prestam a tamanhas contrariedades que nem mesmo hábitos orgânicos ou compromissos inadiáveis são capazes de manter os dias úteis nos trilhos. E, no intermédio desses hábitos, você encontra afazeres tão inúteis quando orgânicos e inadiáveis: arrumar com atenção a cama, esticando todas as pontas do lençol, um passar de mão para desfazer amassados e calombos, a geometria milimétrica da disposição dos travesseiros, dedicar atenção à higiene capilar, occipital, auricular, bucal, facial, peitoral, ciática, inguinal, esmerar na preparação de um bom e equilibrado desjejum ao substituir pão por tapioca, manteiga por margarina, o suco de lata por laranjas naturais, mamão fatiado, melão em pedaços pequenos, promover ordem também na limpeza da pia, os pratos enfileirados no escorredor seguidos pela frigideira, o espremedor se possível junto aos copos, os talheres separados por tipos (em cada compartimento talheres iguais: garfos com garfos, facas com facas, colheres com colheres).

 

Não bastasse esses procedimentos (ou justamente por conta deles), você nota que não regulou aquela porta do armário das panelas que não fecha direito, por isso parte em busca da chave-de-fenda para equilibrá-la. Nota que a caixa de ferramentas está bagunçada, pregos e parafusos misturados, fitas isolantes com veda-roscas, super bonder e durepoxi destampados, de tal forma que requerem uma organização mais que imediata. Assim e então, organizadas as ferramentas e superada a cozinha, no trajeto de volta ao quarto, você repara que os quadros no chão remetem aos pregos que agora têm fácil acesso, então você procura o martelo para finalmente pendurá-los (certamente que os vizinhos já saíram com os filhos pra escola e ninguém se incomodará com o barulho). E, adornado o corredor que não tem mais as paredes nuas de tão brancas, o quarto desvenda-se numa bagunça de roupas penduradas no cabideiro, os sapatos aos pisões entre si, os controles remotos da televisão e do aparelho de dvd e do ar condicionado perdidos entre revistas da semana passada e livros abandonados na metade. Isso impõe a obrigação de se desfazer das revistas, repor os livros nas estantes do escritório (na ordem alfabética de sobrenome dos autores, divididos por gênero, que implicará uma tarefa intermediária à organização do quarto), dispor sobre o criado-mudo os controles em ordem de uso (de fora para dentro, primeiro o da tv, depois o do dvd e então o do ar condicionado no verão, mas, caso seja inverno, colocar primeiro o do ar condicionado), ordenar o passo dos sapatos para que evitem o tropeço ou a má sorte, colher as roupas mais que maduras do cabideiro e colocá-las na máquina de lavar (separando em turnos de lavagem as roupas brancas, as roupas pretas e as coloridas, com atenção redobrada às peças mais frágeis, e isso também implicará numa tarefa intermediária e necessária à organização do quarto) e, nessa colheita, separar também aquelas roupas puídas ou em desuso para outras destinações, que, afinal, podem e devem ser ponderadas neste momento, sobretudo se implicarem encontrar e contatar instituições de caridade.

 

Afinal, prestes a sair de casa, a sala demanda atenção por conta das almofadas amontoadas ao canto e jogadas no chão, do sofá encostado na parede, das páginas do jornal de domingo espalhadas sobre a mesa de centro, copos usados e pratos com farelos de pão escondidos debaixo dessas folhas (e que exigirão certa destreza para se juntarem aos outros utensílios no escorredor da pia). Eis que então e finalmente, uma vez que não sobram mais afazeres desnecessários, os horários dos dias úteis voltam a ser os mesmos como se fossem hábitos orgânicos e incrivelmente obrigatórios e urgentes, posto que você está atrasado, e os compromissos ordinários como se fossem mortalmente inadiáveis, posto que você está atrasado, e, acima de tudo, contrariado com a vida, você não vê escapatória senão sentar frente à porta de entrada e chorar.

 

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