Em alguma medida, somos todos Dave Mustaine: estamos perdidos nesse curto e estranho passeio que chamamos de vida e no qual Deus nos segura uma mão e o Diabo a outra, curto e estranho passeio em que apenas reagimos, indefinidamente reagimos. Porque, anterior ao pensamento, existe a raiva. E sendo muito mais imediata e eficaz que objetivações, muito mais prazerosa que o perdão e a compreensão, nos jogamos e nos deleitamos nos braços da raiva (e deus e o diabo segurando ainda nossas mãos), que nos acolhe na mesma medida em que provoca – e, ao provocar, nos coloca em movimento. O perdão não é capaz de tanto.

 

Por isso mesmo, a recém lançada biografia do líder do Megadeth é uma biografia de você, é uma biografia de todos nós. Afinal, força motriz inescapável (e por vezes mesmo desejada), a raiva e o ressentimento guiam toda carreira desse músico nascido na Califórnia em 1961 e que, depois de um certeiro chute na bunda que o tirou do embrião do Metallica, fez de sua vida uma dedicação incansável à vingança: todos os seus atos só têm por objetivo vencer/superar/humilhar o Metallica.

 

Pode-se reprovar tal motivação? Há, sim, coisas mais louváveis, mas, especialista em artes marciais e pirotecnias na guitarra que ele considera não apenas uma vez, mas inúmeras ao longo do livro como sendo maravilhosos, aterradores, fenomenais e o caramba, Dave Mustaine dedica-se incansavelmente à autoindulgência. Portanto, nada mais lógico que canalizar toda sua energia à técnica com vistas a superação (do outro, nunca dele próprio), e utilizar todo arsenal que possui (o Megadeth) para tanto. Nesse sentido, arrisco dizer que a história das tais dezessete internações em clínicas de desintoxicação, os mais de 18 guitarristas e sabe-se lá quantos baixistas e bateristas passaram pela banda, são apenas sintomas de uma paranoia muito mais profunda, a saber, o incrível chute na bunda proferido por Lars em Nova Iorque, naquele longínquo e inesquecível (ao menos para Mustaine) 11 de abril de 1983.

 

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Psicanálise de bar? Muito provavelmente, mas respaldo essa leitura no fato de que Mustaine – Memórias do Heavy Metal (Benvirá, 2013), antes de se dedicar à carreira ou aos discos do Megadeth, soa muito mais como aquele cara que levou um fora da namorada e aluga o ouvido de todos (pior agora: a timeline alheia) para justificar todas as loucuras que cometeu desde então e, ao mesmo tempo, ignorando paradoxos e contradições, mostrando com inúmeros exemplos e frases de agenda como ele é bom e correto e como, acima de tudo, sobre todas as coisas, não merecia ser dispensado.

 

“Conheço algumas pessoas que me olham – e incluo Lars e James nesse campo – e dizem: ‘Por que não conseguir ser feliz com o que conquistou?’. E estão certos. Vender vinte milhões de discos não é algo pequeno. Mas é mais ou menos metade do que vendeu o Metallica, e eu devia ter sido parte daquilo. É preciso ter sido parte para entender como é, sentir que você está mudando o mundo. E depois ter aquilo tirado das suas mãos, mas ver e ouvir sempre algo que o lembra de como poderia ter sido cada dia do resto da sua vida. E você sabe — realmente sabe — que tudo que conquista, de alguma forma nunca será bom o suficiente.”

 

A raiva é um sentimento profícuo, pois impede a satisfação do perdão e do entendimento, a paralisia causada pelo torpor da conquista e nos impõe movimento, ainda que desgovernado e irascível. Faulkner escreveu O som e a fúria emputecido com o fracasso de seus livros anteriores, por exemplo. Os discos do Megadeth não são como os livros de Faulkner, tampouco as lambanças de Mustaine justificam o “gênio criador” que ele jamais foi/será. Nesse sentido, portanto, a biografia de Mustaine interessa muito pouco àqueles que gostam da banda e quase nada àqueles que não conhecem (e supostamente teriam interesse em conhecê-la), pois, ainda que trate de todas as formações e comente a gênese e os bastidores constantemente tresloucados dos discos da banda, seu principal objeto é Dave Mustaine por ele mesmo.

 

No entanto, muito antes de relatar seu dirty life and times ou se dedicar aos processos pessoais e coletivos que geraram a história do Megadeth, o livro de Mustaine é o relato de um grande e insuperável ressentimento, que, afinal, renderam alguns milhões de discos vendidos, aceitar Jesus como salvador e, consequentemente, um encontro e compromisso com a paz de Deus (sem, no entanto, soltar a mão do Diabo). Não sem antes demitir mais alguns membros do Megadeth para a ressurreição de uma banda que, seguindo um padrão estabelecido desde os primórdios, teima em não sobreviver.

 

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