Ariana apóia-se na janela deste sexto andar para ouvir o improvável marulho de carros e, enquanto fuma um cigarro, me abandona às cítaras que tomam em centenas de cordas esta sala. Surpreendo-me ao ouvi-la dizer ainda de costas

– eu queria ver o limite deste horizonte

apontando os olhos ao indefinido breu desta madrugada, Ariana suspira.

Não digo nada. Acompanho o cabelo negro esparramado pelas costas brancas, o torso desnudo de Ariana não fosse a rasura do sutiã amarrando-lhe as costas, o corpo curvilíneo, a calcinha vermelha, um pé firmemente apoiado e o outro apenas com as pontas dos dedos ao chão como se bailarina, os pés de Ariana. E observando-a me envergonho tão logo descubro os olhos dela me pesquisando o olhar, Ariana num rabo de olho que logo retorna à madrugada em ondas, o cigarro anuviando quadras, e não sem querer sinto uma vontade violenta de fumar, Ariana fumando. E não se importando em me flagrar ou ao menos aparentando não se importar, ela diz numa mistura de entusiasmo e confissão

– eu queria saber o limite deste horizonte

não esperando qualquer resposta talvez por me saber em atenção ao seu corpo, talvez por me deduzir alheio ao que diz, imaginando-me disperso muito embora acredite que compreenderei frases soltas em suspiros, a tênue alteração de sentido numa troca de palavras, e me questiono o que sabe ela, Ariana casada, Ariana mãe aos domingos de churrasco em família e, apesar disso, Ariana seminua à minha frente dizendo saber que sou o tipo de pessoa que também deseja o limite de horizontes: o que sabe ela sobre mim se recém cheguei? eu tão acostumado a horizontes acidentados e irregulares, que sabe ela sobre o que quero?

– Um cigarro

eu digo

– eu queria um cigarro

tentando na verdade expurgar esse desejo que incendiaria noites apaziguando descontroles, providenciando atordoamentos, um cigarro colocando-me ao ritmo calmo de esvair-se aos poucos muito embora ecoe na minha cabeça

it’s better to burn out than to fade away

it’s better to burn out than to fade away

o que sabe ela sobre mim?

Digo, no entanto, que parei de fumar ainda que ela me pareça indiferente às justificativas, tentando acalmar num discurso torto a vontade de torpor, a calma de brasas lentas e atordoamentos, o arrebatamento de nicotina e calor, Ariana agora fumando como se em êxtase para me provocar e me provocando diz

– acho legítima

e calo-me para ouvi-la, as pintas escuras inventando constelações em suas costas claras, uma noite ao avesso afunilando-se à cintura, a calcinha vermelha incendiando ocasos, Ariana dizendo

– acho legítima a vontade de um cigarro

para então tragar fundo antes de enfiá-lo no cinzeiro que permanece muito quieto ao lado dela, Ariana apoiada na janela julgando legítimo o torpor, a calma, atordoamentos e arrebatamentos e por isso está na sala da minha casa nesta madrugada de sexta-feira, o marido sabe-se lá onde, o filho na casa da avó, Ariana entregue à torpores e atordoamentos volta-se a mim, a franja escura quase lhe alcançando os olhos, o cabelo muito liso movendo-se ao ritmo do vento, os lábios secos de Ariana soprando uma lança de fumaça ao dizer

– acho legítima a vontade de um cigarro, pois o impulso à morte faz com que se viva mais intensamente

e a observo agora de frente falando em morte com algum vacilo ainda que as palavras soem assertivas, uma criança experimentando palavrões para descobrir em que momento não será repreendida, e ela me diz com um brilho inconseqüente nos olhos que deveríamos ter feito isso antes, um desejo ingênuo de experimentação, uma rebeldia juvenil as sobrancelhas firmes desenhando sorrisos, os braços sobre a cabeça, Ariana caminhando pela sala para exibir a satisfação do (ou me convencer de que está satisfeita pelo) prazer irresponsável do sexo & da subversão que cometemos. Ela senta-se ao meu lado, um abraço estendido sobre o encosto, o outro abraçando as pernas sobre o sofá, o joelho dela me cutucando ao tempo em que ela continua

– e, se a gente vive intensamente, coisas novas aparecem

e muito intimamente me questiono que coisas novas são essas e até quando buscaremos coisas novas que nem ao certo sei o que são ou para que servem, tantas coisas novas que em quase nada ficam velhas, chatas e óbvias, Ariana sequer imaginando que penso essas coisas ainda dizendo

– por isso o importante são as experiências

num sorriso que invoca imaginações de sábados virados em álcool, o corpo cedendo a uma vontade tão inoportuna quanto intensa, Ariana imaginando-se às sete da manhã sozinha num quarto desconhecido ligando desesperadamente para que alguém explique o que aconteceu e depois rindo desse absurdo que lhe faria bem, sim, Ariana convencendo-se de que, apesar dos pesares, o importante são as experiências, principalmente aquelas que ela nunca teve.

Mas, ainda que já tenha me deixando à mercê desta situação, sexo & subversão numa brecha da lógica caseira de maridos e filhos, eu queria dizer a ela que, se a noite paira lenta sobre o planalto central e as cítaras insistem mantras, isto se deve tão somente à minha escolha de escapar do momento anterior a este, no qual me perdia em amantes destiladas e intermitentes até que meu corpo não resistindo mais às investidas em busca de novidade & experiências, pois tais coisas decorrem do impulso à morte que é um aleluia à vida em sua máxima potência e, portanto, exigem uma disposição atlética, um desprendimento santo, uma inconseqüência que não se pode suportar indefinidamente, por isso eu digo

– há limites, Ariana

e penso ainda em dizer que testar os limites é sempre um exercício doloroso e em nada poético, em nada vitorioso, e que toda conquista implica também ressentimento, resignação e derrota, e não sem querer evito esse único cigarro que é  incitar esses limites, o prenúncio do desgoverno de uma noite sem fim que acaba num cinzeiro cheio, o copo vazio, o café batendo amargo na boca, eu outra vez em tempos de antes sentindo no corpo que ninguém sai impune em flertar limites. Entretanto, antes que eu diga existir ainda conseqüências aos desprendimentos e às afrontas, antes de qualquer coisa, Ariana coloca-se pé me propondo no susto de uma epifania

– vamos viajar

já procurando a roupa jogada ao chão, impossível constelação de pintas desfazendo-se debaixo da blusa que ela veste às pressas

– para onde?

eu pergunto para Ariana fechando a calça, ela então sentando-se para calçar as sandálias e pondo-se rapidamente em pé

– temos o fim de semana

as mãos sobre a cintura, o rosto levemente inclinado para o lado, aquele brilho inconseqüente nos olhos

– vamos para qualquer lugar

e eu, apesar de aterrorizado ao perceber a iminência de um desastre, deixo-me acompanhar nesse arroubo, nós dois ao carro levados pela euforia deste impulso, Ariana sentando-se ao volante coloca o maço de cigarros no painel e abre a porta para que eu entre e eu entro. Mas, antes da partida, nos entreolhamos envergonhados pelo ridículo do que fazemos, posto que ligar este carro seria nada mais que forjar liberdade numa viagem repentina e estupidamente inconseqüente em busca do horizonte que se alcança por que não existe —

Ariana liga o carro.

Liga o carro e manobra a noite abandonada desta quadra para desembocarmos numa imensidão de asfalto sobre essa planície vazia, um trópico cortando o planalto, uma fileira de postes alinhada em leve curvatura providenciando luz e me recordo a primeira paz que senti na brisa fresca deste descampado, vias em paralelo, perpendiculares, a dinâmica de círculos: Brasília em voltas nas quais se anda sem sair do lugar, na verdade todos os lugares o mesmo lugar e isso me aliviou, a tranqüilidade de um lugar óbvio, repetitivo e domesticado, eu certo que de o único movimento jamais feito aqui é a tarde indo lenta ao acaso de ipês inflamados entre as árvores de galhos secos como se a ossatura de uma mão morta no meio do movimento que, no entanto, conseguiu ainda rasgar em cores um pedaço da grama seca, do asfalto quente, do céu monolito azul. E eu quero confessar a ela que gostaria de manter essa tranqüilidade e que, justamente por isso, não poderia estar neste carro, incorrendo sempre e outra vez no mesmo erro de ser seduzido pelo prazer de um gozo como se não conhecesse o vazio posterior

– Ariana

eu digo e me interrompo, pois inevitável que eu estivesse com ela neste carro, afinal, se Brasília tem a segurança do traçado claro em seus limites, as margens do que é seguro na delimitação certa do que deve ser e o que não deveria mas é, neste lugar em que o tempo convoca a sensação é de impedimento, a lógica controlada de quadras, setores, lotes, regiões que possibilitam apenas as voltas de se andar em círculos, Ariana e eu enfastiados desse cerceamento incitados à fugas, diminutas deserção e aventuras extra-conjugais numa sexta-feira, ela e eu neste carro a esta hora da madrugada indo sem rumo por caminhos que desconheço, à mercê de imprevistos, tentando acreditar, ao menos por agora, quem sabe deste jeito, que a calma transformada em tédio poderá de fato nos libertar do que acossa.

Por isso eu inquieto sentindo-me avesso, relutante a este movimento de libertação, entretanto Ariana acelerando o carro que corre e correrá de ponta a ponta essas asas (nenhuma metáfora de vôo) me impele a abrir o vidro para sentir o vento, meus olhos lagrimejando desconfiam desta rodoviária que se aproxima e some sobre minha cabeça e, antes que me localize, ao sairmos deste buraco e encontrarmos a outra asa, ainda confuso com o imbricado nó de ruas em convergência e divergência, a engenhosa geometria de cimento e curvas, eu aceitando finalmente sentir-me outra vez desgovernado, entregue à liberdade que se desvenda em tantas possibilidades à nossa frente e me coloca um brilho inconseqüente nos olhos, os olhos que se detém nos traços grotescos que rasuram o asfalto à frente para terminarem num carro espatifado —

E o que mais me mortifica não é o carro revirado, a constelação de vidro espalhada pela rua desenhando aleatórios asterismos no chão ou imaginar estrondo da pancada, a lataria arrastando-se, os vidros numa chuva, o resfolegar do motor cedendo, não, o que mais me espanta é o silêncio profundo deste momento, a noite leve como se calma, as luzes amareladas dos postes como se eternas, Ariana e eu passando ao lado deste carro virado tão fora do contexto desta rua, um absurdo jogado sobre o canteiro, nós atônitos ao ouvir os pneus estralar sobre os cacos e ao sentirmos o cheiro de borracha queimada evitamos olhar muito embora passemos lentíssimos, são séculos estes metros, o sangue esquentando o rosto, minhas mãos trêmulas, ela segurando firmemente o volante até que a nossa frente apenas a noite, os postes, o canteiro e a rua  em sua ordem vazia a não ser por uma sirene que se aproxima em velocidade, Ariana quieta.

Ficamos indefinidamente quietos por entre os prédios sem vida desta maquete ordinária, uma agonia este carro sem rumo e não suportando Ariana sequer respirar, num ato impensado, mínimo imprevisto ao desconcerto que nos assola, ligo o rádio que denúncia a euforia ciente da tristeza numa guitarra crua e dedilhada em distorções, o lapso da esperança que não suporta a si, uma voz quase tímida em melodias tortuosas, uma voz que anuncia

good morning all it’s a beautiful day

e sabe-se liberta por se saber presa, uma lógica óbvia de círculos inescapáveis posto que o dia nascerá muito embora a noite aflita em ansiedades, tensa em inconseqüências e descaminhos que, dentre tantos, ela então e em silêncio aciona a seta à direita e imbica o carro numa curva que sei ser um retorno, Ariana assumindo derrota, amargando que fugas e diminutas deserção nada são além de intensas e despropositadas ressacas & arrependimentos, um exercício nada poético, nada vitorioso.

Pego o maço de cigarros no painel do carro e finjo-me distraído para olhar Ariana certo de que flagrarei choro, mas o rosto rígido como se ocupada em dirigir não conseguindo, no entanto, esconder a frustração deste retorno, desta madrugada, a frustração que é a frustração de sua vida e por isso Ariana pouco se importa com a fumaça que escapa do cigarro que acendo sem qualquer sensação de alívio ou atordoamento enquanto observo a noite numa queda vertiginosa sobre este lugar onde não há ritmo ou invenção, apenas motores compondo uma harmonia desajeitada, um improviso de acasos, humores e rumores de máquinas lentíssimas se arrastando, grotescos metais que arrotam sons aleatórios ao longo deste desterro de concreto ensaiando curvas distantes, curvas presentes, curvas, até se perderem nas minúsculas caixas de som do meu laptop que byte a byte tentavam reproduzir as cítaras de Ravi Shankar & George Harrison entoando mantras em centenas de cordas para aplacar o engenho frio deste maquinário no qual nós rodamos por suas engrenagens aceitando o tédio que beira o estouro e nunca se realiza em extravaso, Ariana e eu presos ao movimento maquinal deste sistema, rodas de cimento, estrelas de mármore regidas pela signo de ouroboros: uma serpente mordendo a própria cauda, um cachorro correndo atrás do próprio rabo, Ariana e eu convencidos de que Brasília não tem saída apesar do improvável marulho de carros que espraia longe.

(publicado originalmente na Revista meiaum, ano 2, dez.2012/jan.2013)

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