Cyberdrama em um ato

João Nunes

Maurício de Almeida

Streaming rompe com a estrutura mais ‘tradicional’ para aprofundar um tema em pauta hoje: o vazamento de vídeos sensuais na internet e suas consequências. Nessa peça trabalhamos um grupo de universitários que, na ânsia por descobrir e viver, registra um momento íntimo — e esse vídeo acaba sendo divulgado na internet. A peça é estruturada em três tempos distintos: temos o vlog de Isabela (protagonista da peça que tem o vídeo vazado), no qual apresentamos o lado humano e particular das pessoas na internet; e temos dois períodos temporais distintos e complementares, isto é, o antes do vídeo e o depois do vídeo. Esses três níveis entrelaçam-se para apresentar as diversas motivações e implicações dessa situação, que cada vez mais ganha espaço na mídia.

CENA 1

Plano 3 DEPOIS

Sozinha no apartamento dela, Malu anda de um lado para o outro. O nervosismo transparece em todos os atos. Sobre a mesa na sala, um laptop aberto ao qual ela recorre vez e outra na expectativa de encontrar alguma resposta. Vez e outra também ela pega o celular sobre a mesa, ao lado do computador, e consulta.

MALU Cadê você, Jean? Cadê você, Jean? (Desesperada, ela explode). Meu Deus do céu, como é que uma coisa dessas pode ter acontecido com a gente? (Tentando reagir, pega o celular e chama novamente). Atende, Jean, por favor. Porra, cara, você resolve desaparecer exatamente num dia como este? (Frustrada, ela explode outra vez) Como foi que deixamos isso tudo acontecer? (Tenta se controlar, se senta à mesa. Vai para o computador, digita pesquisando algo e encontrar um vídeo. Tão logo os primeiros sons começam, Malu chora)

CENA 2

Plano 1

Primeiro vídeo do vlog de Isabela

(Isabela aparece num telão no dia em que inaugura o vlog dela.)

Oi, oi. Tá ligado isso aqui? Acho que sim. Bem, o que eu faço agora? Me apresento: meu nome é Isabela. A Malu me chama de Isa. Foi ela quem inventou essa história de vlog, disse que preciso começar a ter experiências diferentes. Eu não queria, sou tímida pacas, mas ela me convenceu, afinal estou vivendo uma vida nova! Não moro com meus pais tem algum tempo, desde quando eles se mudaram para Londres há dois anos e pouco. Mas agora eu sinto que estou morando sozinha, sabe? Não só porque não vivo mais com a minha avó, mas por estar no primeiro semestre da faculdade, conhecendo pessoas, vivendo coisas novas; tudo isso me faz sentir morando sozinha. Logo no primeiro dia de aula conheci o Jean e ficamos amigos. Ele é bem o tipo ciências sociais: meio largado, quase sempre quieto, muito articulado quando precisa falar, ponderado, mas nada disso esconde a vontade revolucionária como gosto de chamar o desejo dele por mudanças. Isso me encanta no Jean.

A Malu eu já conhecia; ela sempre foi minha melhor amiga. Foi ela que me incentivou a fazer ciências sociais. Isso porque, mesmo fazendo biologia, a Malu é sempre muito questionadora, sabe? E extrovertida, impetuosa, atirada… Como posso dizer? A Malu é a Malu! E ainda por cima estamos morando juntas! Por isso, não tenham dúvida: festas é o que não faltarão nesta casa!

Ai, meu Deus, será que essa história de vlog vai dar certo? Meus pais, mesmo longe, ou justamente por isso, estão sempre monitorando. Eles não falam, mas sei que ficam de olho na minha vida pela internet. Bem, e quem não faz isso hoje, né? O vlog pode ser legal, mas também me assusta. Imagina ficar pra sempre gravadas as besteiras que estou falando aqui e que não interessam a ninguém? Mesmo depois de eu morrer elas estarão disponíveis, prontas para serem vistas e revistas por qualquer maluco no mundo! Não sei mesmo se é uma boa ideia. Mas acho também que ninguém vai ver. A Malu só me coloca em roubada! É como se ela soubesse o que eu quero, mas que não tenho coragem de fazer. Ela me conhece muito e é bom tê-la por perto neste momento da vida em que estou aberta pra correr riscos. Ainda que, na verdade… Na verdade, o que eu quero… Esquece.

(Interrompe um pensamento, ri e empurra – mas não desliga – a câmera)

CENA 3

Plano 2 ANTES

Festa na casa de Malu e Isabela. Música, muita cerveja etc. Malu e Júlio César dançam. Entram Isabela e Jean. Todos carregam celulares nas mãos e, de tempos em tempos, lêem ou digitam mensagens.

MALU(Recebendo-a carinhosamente) Achei que viesse mais tarde! A nerdzinha que não pode perder uma aula, nem mesmo numa sexta-feira à noite!

ISABELA – Não posso mesmo, mas hoje estava tão chato… E também fiquei pensando nessa festa o tempo inteiro!

MALU – Está começando a virar uma das minhas!

ISABELA – Mesmo achando que não deveria!…

MALU – Você precisa sair mais. Faculdade é só desculpa pra se fazer amigos, influenciar pessoas e estabelecer contatos; network, querida. Ou você acha que está aqui pra estudar?

ISABELA – Malu, esse é o Jean. Jean, essa é a Malu. (Para Jean) Nós moramos juntas aqui.

MALU – Prazer, Jean. Fique à vontade: a casa é sua. Tem cerveja na geladeira e no isopor lá fora. E se precisar ou quiser, meu quarto é aquele ali e minha cama é grande. (Ri) Estou brincando. Ah, e esse é o Júlio César.

JÚLIO CÉSAR – Prazer. Pode me chamar de Júlio. Olá, Isa (Cumprimentam-se com um beijo).

MALU – Ah, é verdade, vocês dois já se conhecem.

ISABELA – Sim, já nos encontramos em outra festa. Mas é claro que você não lembra, né, Malu?

MALU – A vida é curta demais para não beber até apagar, gente!

JÚLIO CÉSAR – Jamais me esqueceria dela, veja bem.

MALU – Nem começa com esse seu lado Don Juan, Júlio.

JÚLIO CÉSAR – Vou pegar uma cerveja. (Para Isabela e Jean) Vocês querem?

JEAN – Onde é o banheiro?

JÚLIO CÉSAR – É logo ali. Te mostro.

(Saem Jean e Júlio César)

MALU – E esse gatinho do Jean?

ISABELA – É só um colega de turma.

MALU – Só é um colega? Sei.

ISABELA – A gente tava no intervalo de uma aula hoje e meio por acaso eu falei da festa e ele se ofereceu pra me dar carona.

MALU – Sei não… Acho que ele está a fim de você.

ISABELA – Nada.

MALU – Então faça ele ficar a fim de você, oras! Porque senão…

ISABELA – Senão o quê? Eu sei que você vai pegá-lo de qualquer jeito

MALU – Sem pensar duas vezes, menina. Mas estamos aqui trabalhando pra você se transformar em uma nova mulher, independente, saudável com desejos próprios. Então, trate de fazê-lo ficar a fim de você.

ISABELA – (Tímida) Para, Malu. Não vou fazer nada.

MALU – Pare de ser tímida assim. Aliás, e o vlog?

ISABELA – Aquilo é muito esquisito!

MALU – Mas você está gravando?

ISABELA – Ah, gravei um vídeo. Mas não ficou bom.

MALU – Não precisa ficar bom.

ISABELA – Me dá vergonha. Qualquer um pode estar vendo. Imagina se eu falo demais e minha mãe assiste?

MALU – Sua mãe viu o vlog?

ISABELA – Pior que viu.

MALU – Mas foi só um vídeo! Como ela encontrou?

ISABELA – Apesar de todo anonimato, nada fica indiferente na internet, você sabe.

MALU – Mas já tem gente te compartilhando, é?

ISABELA – Esquisito, né? E ela já me mandou uma mensagem comentando as coisas que eu falei.

MALU – Sua mãe é muito antenada.

ISABELA – Depois que ela descobriu os tutoriais, nenhuma tecnologia é difícil para ela.

MALU – O vlog não é para sua mãe, mas pros garotos curtirem. Falando nisso…

(Júlio César e Jean voltam; Jean trouxe uma cerveja para Isabela)

MALU – A casa tem uma varanda bem bacana que dá pro quintal. Vamos pra lá?

JÚLIO CÉSAR – Vamos, porque essa música está muito chata.

MALU – Você é que não entende nada de música. É Tom Waits, porra.

JÚLIO CÉSAR – Chata, chata…

(Eles saem para a varanda)

ISABELA – Também não é tanto assim, vai?

JÚLIO CÉSAR – Não me diga que você gosta?

ISABELA – Não conheço muito, mas gosto. (Para Malu) É aquele que você baixou no meu celular, não é?

MALU – Isso.

JÚLIO CÉSAR – Preciso conhecer, então.

MALU – É, agora você precisa, né? E você está curtindo o curso, Jean?

JEAN – Bastante. Ciências sociais é fascinante. Você faz o quê?

MALU – Biologia.

ISABELA – O Jean está planejando uma viagem pra América do Sul nas férias.

MALU – Conheço Machu Pichu. Você curte astrologia?

JEAN – Mais ou menos, quer dizer…

JÚLIO CÉSAR – Ainda bem, porque se não a Malu iria dar uma aula sobre seu signo.

MALU – Melhor que a realidade. Tirando comida e sexo, a vida real é muita chata.

JEAN – Mas tem bebidas, baseado, música, viagens…

MALU – Qual seu signo?

JÚLIO CÉSAR – Não começa.

JEAN – Câncer.

MALU – Esse é pra casar, Isa, apegado à família…

ISABELA – Não acho. Ele não tem namorada, quer viajar sozinho, só pensa no grêmio estudantil e em política.

JÚLIO CÉSAR – Isso não quer dizer nada. Eu não sou de Câncer e não descarto casar e ter filhos.

JEAN – Tenho muito que fazer antes de pensar nesse assunto, Malu.

ISABELA – Não disse?

MALU – Está certo, esquece casamento, essa instituição antiga e patriarcal e tão fora de lugar no mundo de hoje.

JÚLIO CÉSAR – Como fora de lugar? Todo mundo casa o tempo inteiro.

MALU – E descasa.

JÚLIO CÉSAR – E casa de novo.

MALU – Porque são imbecis.

JÚLIO CÉSAR – Mesmo não sendo defensor do casamento, não me considero imbecil por pensar em me casar um dia.

MALU – Falei genericamente.

JÚLIO CÉSAR – Pra você, se não existe casamento, existe o quê?

MALU – Existem relações afetivas e sexuais, de preferência mais de uma, e ao mesmo tempo, se é que me entendem.

JÚLIO CÉSAR – E você, Isabela, o que acha disso?

ISABELA – Ai, gente, juro que não sei. Sempre fui assim, como posso dizer, meio carola, mas estou numa fase de descobertas.

JÚLIO CÉSAR – Descobertas…?

MALU – Não seja impertinente.

JÚLIO CÉSAR – Olha quem fala.

ISABELA – Faz parte, Júlio, assim como casamento, mas não estou pensando nisso.

MALU – Em sexo ou em casamento?

ISABELA – Nos dois.

JÚLIO CÉSAR – Todo mundo pensa.

MALU – Eu penso em sexo, não em casamento.

JEAN – Pode ser que não agora, mas um dia toda mulher pensa.

MALU – Eu entendi mal ou seu comentário teve um quê machista?

JÚLIO CÉSAR – É um ponto de vista.

MALU – Altamente generalista. Pior: essencialista! Eu poderia dizer o mesmo: todos os homens querem casar; o que, afinal, acontece, porque um dia todos casam; até os gays, hoje, casam de papel passado e tudo.

JEAN – Homens casam por que as mulheres querem.

MALU – Ah, não, para tudo. Isa, esse seu amigo é muito machista. Você também está no primeiro semestre, né? Pois ainda tem muito que ler e aprender.

JÚLIO CÉSAR – Ou você que é liberal demais?

MALU – Eu só não aceito esses comentários, pois é assim que prevalece o domínio masculino sem que ninguém perceba. Se a mulheres soubessem o poder que têm, os homens jamais teriam se apossado do mundo. Porque foi exatamente o que aconteceu. Vocês tomaram posse e dominaram e nunca ninguém contestou. Ou melhor, não contestou até agora, isso está mudando.

JÚLIO CÉSAR – Que preguiça, Malu! Você e esses discursos com data de validade vencida.

MALU – Você está por fora, meu querido. Isso é pauta do dia. Olhe ao seu redor: presidentes, líderes mundiais, escritoras – nós somos a pauta do dia. Acabou aquela coisa de mulherzinha em casa feita pra procriar.

ISABELA – (Em tom de brincadeira) Pra quem ainda não enxergou, as mulheres vão dominar o mundo.

JÚLIO CÉSAR – Mulheres, cachorros e chineses. Nesta ordem.

MALU – Suas gracinhas não me comovem.

JÚLIO CÉSAR – O pior é que estou falando sério.

JEAN – (Levantando uma latinha de cerveja) O mundo novo para um novo século tem de necessariamente passar pelo poder compartilhado.

MALU – (Brindando com Jean) Hum! Assim fica bem melhor.

(Um clima entre Jean e Malu. Isabela percebe e, procurando uma maneira de deixá-los sozinhos, diz)

ISABELA – Júlio, vem comigo que vou te passar umas músicas boas pra você parar de ser chato.

JÚLIO CÉSAR – (Galanteador) Assim você me magoa. Mas, sim, me salve!

ISABELA – Aproveita e pega uma cerveja para mim.

JÚLIO CÉSAR – Seu desejo é uma ordem.

(Isabela e Júlio saem, Malu e Jean permanecem. Malu acende um cigarro)

CENA 4

Plano 3 DEPOIS

(Elipse: Malu e Jean estão mesma sacada que da cena anterior, só que em outro Plano. Tal como anteriormente, ela está fumando um cigarro)

MALU – Porra, onde você se meteu? Eu estava desesperada.

JEAN – Fui pra casa da minha mãe colocar as ideias no lugar.

MALU – Mas podia ter ligado.

JEAN – Minha cabeça deu um nó e eu decidi sair fora. Não estava a fim de falar com ninguém.

MALU – Por isso seu celular só cai na caixa postal?

JEAN – Fui assaltado, me levaram a grana e o celular.

MALU – E aí?

JEAN – Desencana.

MALU – Me conta. O que aconteceu?

JEAN – Malu, a Isa está ferrada no hospital e você quer saber do meu celular?

MALU – Não precisa ser grosso.

JEAN – É que essa história da Isa me pirou.

MALU – Só pirou você, né? Quem ficou aqui segurando a onda sozinha?

JEAN – Eu sei… (Quase se exaltando) Eu sei, desculpa. Não está fácil pra mim.

MALU – Não está fácil pra ninguém saber que a Isa naquele maldito hospital. Caralho, a nossa amiga, a Isabela. Pois então, ela está num hospital fudida por causa de…

(Interrompe como se não pudesse dizer o que aconteceu com Isabela. No entanto, interromper a frase no meio não impede que o clima entre eles pese novamente)

JEAN – Alguma novidade sobre o estado dela?

MALU – Não, nada.

(Ficam em silêncio de novo)

JEAN – Você está fumando demais.

MALU – Não enche.

JEAN – Só estou preocupado com sua saúde.

MALU – Ah, Jean vai se foder. Cara, a Isabela está…

JEAN – (Interrompendo) Desculpa, desculpa.

(Silêncio novamente)

JEAN – Onde ela estava quando você chegou?

MALU – A Isabela estava transtornada. Sem pensar, saí para procurar o Júlio. Talvez por julgá-lo culpado pelo acontecimento. Ela não quis ir, estava envergonhada, não queria sair na rua. Eu insisti, já que o telefone dela não parava de tocar, era gente ligando, mandando mensagens, enlouquecendo a menina. Mesmo assim, a Isa foi irredutível e quis ficar em casa e acabou ficando sozinha. (Emocionada) Quando voltei, encontrei ela jogada no banheiro.

JEAN – Puta que pariu.

MALU – Eu nunca pensei que fosse viver uma coisa dessas. Ela sentada no chão, encostada na parede toda torta, branca, os lábios roxos… Parecia morta, cara, parecia…

JEAN – Mas não estava. E não está.

MALU – Não faz diferença. É como se estivesse.

JEAN – Mas ela não…

MALU – (Certeira) Ela está em coma. (Cedendo) Ela está em coma entupida de remédio… (Malu desaba e é amparada por Jean. Em seus braços, ela volta a repetir, agora perguntando ao amigo) Como é que uma coisa assim foi acontecer com a gente? Por favor, me explica, porque eu não consigo entender. (Jean ensaia uma resposta, mas Malu não o deixa iniciar, e assume um tom forte) Algum filho da puta fodeu com ela. E foi de propósito. Só pode ter sido de propósito. Porque fazer uma coisa assim sem razão? Precisa ter uma razão.

JEAN – Não sei se há necessariamente razão.

MALU – Mas não é possível existir tanta boçalidade assim. Ah, não importa também (Jean tenta ampará-la, mas ela mantém a dureza no trato) Eu simplesmente não consigo acreditar.

JEAN – A gente não tinha como saber.

MALU – Não entra na minha cabeça como alguém pode ter feito isso. E só pode ter sido um de nós.

JEAN – Bom, não fui eu.

MALU – Foi o Júlio, eu tenho certeza.

(Pausa)

JEAN – E por que eu não posso pensar que foi você?

MALU – Porque essa é a ideia mais escrota que alguém pode ter. A Isa é minha melhor amiga e eu nunca faria isso com ela; não tem cabimento achar que fui eu.

JEAN – Mas quem teve a ideia de fazer o tal filme experimental foi você. Além do mais, você tem uma quedinha por ela e ciúmes é foda.

MALU – Sem essa. Cinema é cinema. E eu só queria mostrar pra ela que a vida pode ser melhor sem aquelas tantas amarras que ela tinha.

JEAN – Que ela tem.

MALU – (Incisiva) Tá, entendi.

JEAN – E vai me dizer que você não ficou com ciúmes?

MALU – Por acaso você está me acusando?

JEAN – Estou dizendo que todo mundo tem uma razão pra ter feito o que fez.

MALU – E qual foi a sua?

JEAN – Nenhuma.

MALU – Se todo mundo tem uma razão, você também tem, oras.

JEAN – Sou muito mais vítima do que acusado.

MALU – Vítima? Por acaso você está naquele hospital? (Pausa.) Desculpe. Pensando bem, todo mundo seria capaz, sei lá, por alguma razão escusa, uma piração qualquer, por mais bizarro que pareça.

JEAN – Será que o Júlio teria coragem de…?

MALU – Não sei de mais nada. Fato é que mesmo que tenha sido o Júlio, isso não nos isenta da culpa.

JEAN – Culpa do quê?

MALU – Não se faça de ingênuo.

JEAN – Eu não fiz nada sem a conivência da Isabela.

MALU – Eu também não, mas estamos todos metidos na mesma merda que provocou isso tudo. (Pausa) Não consigo parar de me fazer a mesma pergunta: o que a gente quis provar?

JEAN – Acho que a gente estava se testando.

MALU – Sei, mas ainda assim…

JEAN – Acho que não bastaram as festas e as bebedeiras de sempre, a gente quis ir além.

MALU – Além do quê? Esta é a pergunta. Tudo bem, a gente tava chapado e bebendo sem parar e o contexto todo era propício. Mas, mesmo com todas as justificativas do mundo, eu volto ao mesmo ponto: o que a gente quis provar?

JEAN – Que seríamos capazes de testar todos os limites.

MALU – Nunca imaginei fazendo essa pergunta, mas pra quê?

JEAN – E por que não?

CENA 5

Plano 1

Segundo vídeo do vlog de Isabela

Não estou acostumada a beber, então não poderia ter sido diferente: tive meu primeiro porre naquela festa aqui em casa. Nenhum vexame nem nada, acordei direitinho (e sozinha, viu, mãe?) e… bem, numa baita ressaca! Mas o mais interessante mesmo foi o momento em que eu estava bebendo e soube que iria ultrapassar uma barreira. É difícil explicar, mas foi como se soubesse que depois de determinado gole eu perderia o controle. Não que antes eu tivesse muito, estava longe da sobriedade, mas naquele gole eu sabia que perderia o controle. E pensei: por que não?

Claro que eu poderia ter parado, tomado um copo de água, deitado um pouco. Sou fraca pro álcool e jamais beberia igual à Malu ou ao Jean, mas algumas coisas na vida precisam ser vividas, ainda que acabem em ressaca ou arrependimento. Como diria minha avó, melhor se arrepender daquilo que não fez. Ai, como sou clichê. Enfim, e como diria a Malu, a vida é curta demais para não vivermos uma ressaca. E finalmente estou entendendo o apelo da cerveja, que sempre achei amarga. Quem sabe pego gosto?

Afinal, ainda que me lembre pouco do que aconteceu, foi legal beber com o Jean, a Malu e o Júlio. Quando passei no vestibular, me disseram que os amigos que ficam pra sempre a gente faz na faculdade. Talvez seja verdade, por que perdi completamente o contato com os amigos do colégio. E não só na festa, mas, nas vezes que a Malu e eu nos reunimos com o Jean e o Júlio, parecia que nos conhecíamos há séculos. Eles sabem sobre tantas coisas, música, literatura, mundo, que me encanta apenas ouvi-los e fazer parte disso. Estou tão animada!

Aliás, Malu e eu estávamos pensando em fazer uma proposta aos garotos, mas a gente não sabe bem ainda o que é. O objetivo é que nós fiquemos mais próximos, curtindo essa fase juntos. Se der certo, vai ser bem legal.

Enfim, beijo, beijo.

(Trecho da peça Streaming escrita em parceria com João Nunes no segundo semestre de 2014. Inédita.)

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