Verão é um drama familiar que tem como protagonista um garoto de 14 anos, o Gabriel. Não bastasse as dificuldades próprias da idade, ele está em conflito com a madrasta e indiretamente com o pai. Completa o quadro a avó protetora, que oscila entre apoiar ora as atitudes do filho e ora as atitudes do neto.

ATO UM

Estamos em um apartamento típico de classe média baixa. A sala é pequena e abarrotada: em frente ao sofá há estante com fotos, televisão e imagem de Nossa Senhora; ao lado, mesa de fórmica e com quatro cadeiras. Um ventilador ligado denuncia o calor no ambiente, os personagens estão constantemente enxugando o suor. Lucinda (60 anos) anda ansiosamente de um lado a outro com terço nas mãos. Para algumas vezes frente a Nossa Senhora, murmura prece, faz o sinal da cruz e volta a andar. Sentada no sofá, ora folheando revista, ora observando com enfado a movimentação de Lucinda, está Tamires (26 anos, ex-recepcionista de academia, desempregada há alguns meses). A cena é interrompida por Oswaldo (35 anos), que entra apressadamente. Além deles, moram na casa Thiago, bebê de poucos meses de Oswaldo e Tamires, e Gabriel (14) filho do primeiro casamento. Assim que Oswaldo fecha a porta, Lucinda o aborda tensa, pois Gabriel fugiu de casa. O ato se passa numa sexta-feira, por volta das 21h.

CENA 1

LUCINDA – Finalmente você chegou!

OSWALDO – O que aconteceu?

LUCINDA – O Gabriel sumiu.

OSWALDO – Como assim?

LUCINDA – Saí para comprar uns remédios e, quando voltei, ele não estava mais aqui.

OSWALDO – Que horas foi isso?

LUCINDA – Umas três da tarde.

OSWALDO – E o celular dele?

LUCINDA – Só dá caixa postal.

TAMIRES – Ele deve estar na casa daquele amigo meio destrambelhado.

OSWALDO – A senhora ligou pro… (Para Tamires) Como é mesmo o nome do menino?

TAMIRES – Lucas.

LUCINDA – Não tive coragem.

OSWALDO – Por quê?

LUCINDA – E se ele não estiver lá?

OSWALDO – Você me fez sair correndo do trabalho só pra ligar pro amigo dele?

TAMIRES – Não era sem tempo. São nove horas da noite, Oswaldo.

OSWALDO – Ele provavelmente está com o Lucas jogando vídeo-game. Parece que nasceu grudado com esse amigo.

LUCINDA – Ele teria avisado.

OSWALDO – Deve ter perdido noção do tempo.

LUCINDA – E se não estiver lá? Deus me livre, Nossa Senhora!

OSWALDO – Qual o número do Lucas?

LUCINDA – Tem na agenda do lado do telefone.

OSWALDO – (Pega o celular) Droga, acabou a bateria.

LUCINDA – Será que o Gabriel tentou te ligar?

OSWALDO – Ele nunca me liga. (Teclando o número no telefone fixo)

TAMIRES – Por que você demorou tanto?

OSWALDO – Estou resolvendo algumas coisas importantes no escritório.

TAMIRES – Até essa hora?

OSWALDO – (Esperando tenso que Lucas atenda. Falando ao telefone) Oi. Lucas? Aqui é o pai do Gabriel, tudo bem? Ele está aí? Você falou com ele hoje? Nem na escola? Ah, férias. Verdade, verdade. É que ele ainda não chegou e estamos preocupados. Tem ideia de onde ele pode estar? Se souber de alguma coisa, ligue aqui. Ok, obrigado, tchau (pausa). Ele não sabe de nada. Diz que não falou com o Gabriel hoje.

TAMIRES – Esse Lucas tem problemas.

LUCINDA – Ai, meu deus!

OSWALDO – Pensei que as férias dele tivessem acabado.

LUCINDA – As aulas voltam na segunda.

OSWALDO – Não lembrava.

LUCINDA – Onde será que está meu neto?

OSWALDO – A senhora está me deixando nervoso, mãe. Ele está bem.

TAMIRES – Vai saber. Além do mais, sabe como é esse menino, né.

OSWALDO – (Para Tamires, Irritado) Esse menino é meu filho.

TAMIRES – Não precisa ficar bravo.

OSWALDO – Pois então não provoque. Na verdade, gostaria que você ao menos demonstrasse alguma preocupação.

TAMIRES – (Insolente) Eu estou preocupada. Vocês é que precisam ter uma conversa séria com ele.

OSWALDO – Tá bom, tá bom.

LUCINDA – O Gabriel nunca sai de casa sem avisar.

OSWALDO – A senhora percebeu alguma coisa diferente?

LUCINDA – Ele passou o dia calado.

TAMIRES – Ele nunca fala.

LUCINDA – O que é bom em muitos casos.

TAMIRES – Falta de educação, isso sim.

OSWALDO – Alguém ligou, sei lá…observaram qualquer coisa estranha

LUCINDA – Só percebi que ele estava mais quieto que os outros dias.

OSWALDO – Quanto tempo a senhora ficou na farmácia?

LUCINDA – Uns 20 minutos. Avisei que ia sair e perguntei se ele queria ir junto ou se precisava de alguma coisa. Ele só disse que não, que estava tudo bem. Quando cheguei, ele não estava mais. Até pensei que ele tivesse ido visitar o Lucas, que está doente. Mas aí ele não deu notícias e começou a demorar.

OSWALDO – Onde você estava, Tamires?

TAMIRES – Fui fazer umas compras pro Thiago. Fraldas, roupas.

OSWALDO – (Para Tamires) E o Thiago?

TAMIRES – Está dormindo.

OSWALDO – Você deu a mamadeira?

TAMIRES – (Enfezada) Claro! Que tipo de mãe você acha que sou?

OSWALDO – Quer dizer que o Gabriel estava sozinho?

LUCINDA – Ele não quis ir comigo.

OSWALDO – Mas não pode.

TAMIRES – Ele já está bem grandinho.

OSWALDO – Você bem que poderia cuidar um pouco do Gabriel.

TAMIRES – Não sou mãe dele.

OSWALDO – Mas poderia ajudar minha mãe. E me ajudar.

TAMIRES – Só me faltava essa! Com 14 anos eu estava trabalhando. Esse menino só faz estudar e dormir.

OSWALDO – Não comece.

TAMIRES – Eu disse algum absurdo?

OSWALDO – Não, mas eu te conheço bem. Seus comentários têm sempre umas gotinhas de…

TAMIRES – Do quê?

OSWALDO – Nada, esquece.

TAMIRES – Você ia dizer veneno, eu sei.

OSWALDO – Quase isso.

TAMIRES – Não consigo entender. O menino tem tudo: casa, comida, dinheiro. A dona Lucinda trata ele como filho, mima o tempo todo. E ele pega e me foge de casa?

LUCINDA – Ele não fugiu!

TAMIRES – Ele é muito mimado.

OSWALDO – (Para Lucinda) Tem mais alguém que possa saber dele?

LUCINDA – Acho que não.

TAMIRES – É melhor ligar pra polícia.

LUCINDA – Polícia, não.

OSWALDO – Qual é o problema?

LUCINDA – Fico aflita só de pensar em polícia.

OSWALDO – Não adianta fingir que não está acontecendo nada, mãe. O Gabriel não é mesmo de fazer esse tipo de coisa. É melhor ligar para a polícia, sim.

LUCINDA – Só se não tiver outra saída.

OSWALDO – (Impaciente) E tem outra saída?

LUCINDA – Não é caso de polícia… (Oswaldo tecla o telefone e espera).

OSWALDO – (Ao telefone) Boa noite. Meu filho desapareceu de casa no começo da tarde e eu não sei quais providências devo tomar. 14. Umas seis horas atrás. Não sei com que roupa ele estava. Ninguém viu ele sair. Levou a mochila? (olhando pra Lucinda e pedindo confirmação).

LUCINDA – A mochila não está no quarto.

OSWALDO – (Ao telefone) Sim, levou. (Para Lucinda). Qual é a cor?

LUCINDA – Vermelha e preta.

OSWALDO – (Ao telefone) Vermelha e preta. Moreno, cabelo preto, curto, arrepiado, mas deve estar de boné branco e azul – ele não tira o boné. Liguei pro melhor amigo, mas ele não sabe de nada. Não sabemos mais onde ele pode estar. Não, não temos nenhum parente na cidade. Algum sinal? No corpo? Não. Acho que não. Tatuagem? Não que eu saiba. Pelo menos não visível. Você pode me dizer se houve algum acidente nas últimas horas envolvendo um garoto? O celular? (Para Lucinda). Qual o celular dele?

LUCINDA – 7124.2399

OSWALDO – (Oswaldo o repete ao telefone) Mas só dá caixa postal. Em quanto tempo vocês acham que podem dar um retorno? Sei. Entendo, entendo. Obrigado. Telefone de contato? Sim, sim, esse mesmo. Me ligue quando tiver qualquer novidade, por favor.

LUCINDA – E aí?

OSWALDO – Vão emitir um chamado pela cidade. Mas eles não podem considerar desaparecimento antes de 48 horas.

LUCINDA – Teve acidente?

OSWALDO – Não. (Nervoso) Temos de esperar.

LUCINDA – Esperar, esperar. A gente precisa fazer alguma coisa. Estou com pressentimento ruim.

OSWALDO – Pare de besteiras.

LUCINDA – Minha intuição não falha.

OSWALDO – Não vem com essa conversa.

LUCINDA – É que… o Gabriel teve uns problemas…

OSWALDO – Que problemas?

LUCINDA – Ele anda meio deprimido.

TAMIRES – Desde quando criança fica deprimida?

LUCINDA – Está quieto demais, apático, não é mais aquele menino de antes.

TAMIRES – Frescura.

OSWALDO – Coisa de adolescente.

LUCINDA – Não é.

OSWALDO – E por que não me falou?

LUCINDA – O que ia adiantar? Você vive ausente.

OSWALDO – (Irritado) Era só o que me faltava!… Tenho de trabalhar, mãe!

LUCINDA – Você é ausente até nas coisas mais práticas.

OSWALDO – Que coisas?

LUCINDA – Você não sabe nem o número do celular dele. Se eu falasse em depressão, capaz de você brigar comigo. E com ele, o que é muito pior.

OSWALDO – Ninguém mais sabe número de telefone de ninguém, está tudo na agenda do celular. Além do mais, a gente está o tempo todo juntos.

LUCINDA – Você sai cedo de casa e só chega depois do jantar.

OSWALDO – Não seja dramática.

TAMIRES – É verdade, tenho de concordar. O Thiago nem deve mais reconhecer o pai.

OSWALDO – Alguém tem que trabalhar aqui. Eu não sei mesmo o número do celular, mas se quiser falar com ele, eu ligo em casa.

LUCINDA – Você não sabia a cor da mochila.

TAMIRES – Até eu sabia.

OSWALDO – E eu lá tenho tempo para prestar atenção na cor da mochila dele? Não basta ter comprado?

LUCINDA – Fui eu que comprei.

OSWALDO – Entendi o recado, mãe.

LUCINDA – E saber o número do celular numa hora dessas ia fazer falta. Imagina se eu não estivesse aqui. (Suspira) Eu não posso ficar longe do meu neto…

(Eles se calam. Não sabem exatamente o que fazer.)

OSWALDO – (Mais calmo) A senhora pegou pesado comigo.

LUCINDA – Mas é verdade.

OSWALDO – Fico muito tempo no trabalho porque preciso. O pessoal da empresa está me cobrando cada vez mais. É sinal de confiança, pois estamos abrindo uma filial no nordeste e eles contam comigo. E muito. Estou num momento importante da vida e fazendo o melhor que posso.

LUCINDA – Eu sei que você é esforçado, mas custa conversar com o Gabriel um pouquinho? Porque comigo ele conversa. Me conta da escola, do futebol, das namoradinhas, tudo.

OSWALDO – Então o problema sou eu?

TAMIRES – Comigo ele nem abre a boca. É como se eu não existisse.

OSWALDO – Eu faço tudo pra ele.

LUCINDA – Em casa, você só tem tempo pra sua mulher e pro Thiago.

TAMIRES – Ele é meu marido e pai do meu filho, não faz mais que obrigação.

LUCINDA – O Gabriel também é filho.

TAMIRES – Até café na cama a senhora leva pra ele, dona Lucinda. Que atenção mais ele precisa?

OSWALDO – A Tamires tem razão, a senhora mima demais esse menino.

TAMIRES – Até o prato de comida dele a senhora faz. E não pode faltar carne, e no domingo tem de fazer macarronada pro Gabriel, e o Gabriel precisa de tênis novo, e o Gabriel precisa descansar. Tudo é o Gabriel!

LUCINDA – (Para Tamires) E cuidei muito bem do seu filho quando você estava trabalhando. Amo meus dois netos do mesmo jeito, não faço diferença.

TAMIRES – Agora que eu estou desempregada, nem olha pro Thiago. A senhora podia dar uma atençãozinha de vez em quando. Me ajudaria bastante.

LUCINDA – Você nem está trabalhando.

TAMIRES – Mas tenho de sair pra procurar emprego. E não dá pra levar o Thiago.

LUCINDA – Devia ter continuado na outra academia. Não estava bem lá?

TAMIRES – Eles pagavam mal.

LUCINDA – Mas pagavam. Largou o emprego pra passar o dia vendo TV.

TAMIRES – E cuidar do meu filho.

LUCINDA – Eu estava cuidando dele.

OSWALDO – Nós combinamos que ela tiraria uns meses para ficar com o bebê, mãe.

TAMIRES – E eu preciso ficar perto dele porque nada substitui uma mãe.

OSWALDO – Estou preocupado com meu filho e vocês ficam se agredindo!

LUCINDA – Eu só estava dizendo que o Gabriel precisa de atenção.

OSWALDO – Ele tem de aprender a se virar. Depois cresce um rapaz inseguro.

TAMIRES – E fica metido e sem educação.

LUCINDA – Ele está passando por momento difícil. É só um menino, mas já teve de lidar com muita coisa complicada.

OSWALDO – Todos nós temos de lidar com coisas difíceis.

LUCINDA – Mas não é fácil pra ele ter perdido a mãe tão cedo.

OSWALDO – Eu sei.

LUCINDA – Vocês dois deveriam ser mais presente na vida dele. Os dois!

TAMIRES – Ele não gosta de mim.

LUCINDA – Seja mais adulta e aproxime-se do garoto.

TAMIRES – Nem vem que não tem.

LUCINDA – Ouviu o que eu disse: mais adulta.

OSWALDO – Sinceramente, não sei o que a senhora espera da gente, mãe.

LUCINDA – Não vejo você trocar uma palavra com ele. Não ajuda na lição de escola, não vai ver o time dele jogar.

OSWALDO – Ele não joga futebol.

TAMIRES – Joga, sim, amor.

OSWALDO – Ele nunca falou nada.

LUCINDA – Pois é. E no sábado passado…

(O telefone fixo toca e interrompe Lucinda. Todos ficam apreensivos. Oswaldo atende.)

OSWALDO – Alô. Não, não. É, acabou a bateria do celular e esqueci de colocar pra carregar. É, acabei de chegar em casa. Não, não, pode falar. Sim, Freitas, terminei o balanço geral. Sim. Está no meu computador. Mando pro seu e-mail em cinco minutos. Pode deixar. Abraço. (Desliga o telefone) Trabalho, trabalho. Onde está minha mochila?

TAMIRES – Pra quê?

OSWALDO – O computador está dentro. (Pegando a mochila)

LUCINDA – Está vendo?

OSWALDO – O quê?

LUCINDA – Não vou falar nada.

OSWALDO – Eu preciso mandar um arquivo agora. É importante.

LUCINDA – Você não sabia nem que o seu filho jogava futebol e vai continuar sem saber. É exatamente isso que quero dizer quando falo que você não participa da vida dele.

OSWALDO – (Sentado ao computador) Ok, me fale do futebol.

TAMIRES – Isso não faz diferença agora. Faça seu trabalho, amor.

LUCINDA – (A contragosto, mas contradizendo Tamires) No sábado passado teve decisão do torneio de futebol do bairro. Último jogo antes de acabar as férias dele. E ele veio me perguntar se você ia.

OSWALDO – E por acaso alguém me falou alguma coisa sobre esse jogo?

LUCINDA – Você ia ao shopping com a sua mulher.

OSWALDO – A senhora podia ter falado que a gente ia ao shopping depois.

TAMIRES – Negativo, eu tinha marcado entrevista na academia que abriram lá. Eles estão precisando de recepcionista.

LUCINDA – Entrevista que não deu em nada.

TAMIRES – E o jogo de futebol do bairro era mais importante que emprego?

LUCINDA – Você não é o centro do mundo.

TAMIRES – Estou falando de assunto sério, não de brincadeira de criança.

LUCINDA – Estou falando da relação de pai e filho. Também não é brincadeira.

OSWALDO – (Fechando o computador) Você devia ter avisado, mãe.

LUCINDA – Eu fui ver o jogo.

OSWALDO – Com quem?

LUCINDA – Sozinha. E ele ficou muito feliz.

TAMIRES – A senhora é uma santa, né, dona Lucinda!

OSWALDO – Você fala que a gente precisa ajudá-lo, mas a senhora mesmo não nos ajuda. Se sabe que ele está passando por problemas e quer mais a minha presença, por que não me conta sobre essas coisas?

LUCINDA – Eu sabia que você não poderia ir, oras. Então eu disse a ele que tinham chamado você na empresa de última hora.

OSWALDO – E o jogo?

LUCINDA – O time perdeu. (Tamires ri) Mas ele não ficou chateado, não. Até colocou a foto no computador.

TAMIRES – Facebook.

LUCINDA – O quê?

TAMIRES – A foto está no Facebook.

LUCINDA – Tanto faz. Ele me mostrou a foto.

OSWALDO – Você viu, Tamires?

TAMIRES – Sim. Por isso que eu fiquei sabendo que ele jogava futebol.

OSWALDO – Por que não me mostrou?

LUCINDA – Ciúmes.

TAMIRES – Ah, é só uma foto, não tem nada demais.

OSWALDO – (Para Lucinda) O que mais eu não sei sobre ele?

LUCINDA – Ele gosta de uma menina, mas ela é meio velha, tem uns 17 anos. Será que ele não está com ela?

TAMIRES – A garota nem olha na cara dele.

OSWALDO – Quem é a menina?

LUCINDA – Da escola. A Tamires está certa, a menina nem dá bola. Ele anda triste que só. Coitadinho do meu neto.

TAMIRES – (Rindo) Olha a ideia do moleque. Por que não pega uma menina da idade dele? Espero que pelo menos seja bonita.

(Silêncio novamente. Indiferente ao clima de apreensão na sala, Tamires abre o computador. Lucinda e Oswaldo estão inquietos.)

OSWALDO – Não consigo entender o Gabriel. Ou ele fica trancado no quarto jogando videogame ou com a cara enfiada naquele celular, fone de ouvido, cabeça baixa. Se eu pergunto qualquer coisa é só ‘sim’ ou ‘não’. O que eu posso fazer?

TAMIRES – Meu pai mal falava comigo e eu nunca fugi de casa.

OSWALDO – Ninguém fugiu de casa.

TAMIRES – O menino sumiu de mochila, gente.

LUCINDA – E daí?

TAMIRES – Até onde sei, ele não tem aula numa sexta-feira às nove da noite. Muito menos nas férias. Aliás, que eu saiba, nem estudar direito esse menino estuda.

LUCINDA – Quero ver quando o Thiago for adolescente. Você vai morder a língua.

TAMIRES – Vai ser melhor que o Gabriel, pode apostar.

LUCINDA – Melhor em quê? Isso não é competição. E o Gabriel é um menino bom, não faz mal a ninguém.

TAMIRES – Eu sei como ele é bonzinho.

LUCINDA – Por que você está falando desse jeito…?

OSWALDO – É, desse jeito irônico?

TAMIRES – Esquece.

OSWALDO – O que ele aprontou?

TAMIRES – Ele não é o santinho que todo mundo imagina.

LUCINDA – Você não sabe o que está falando.

OSWALDO – Diz logo: o que ele fez?

(Tamires não responde e continua teclando no computador. Todos ficam em silêncio. Depois de um tempo, Lucinda quebra o clima de mal-estar.)

LUCINDA – Vou ligar outra vez pro celular dele. (Disca) Caixa-postal outra vez.

OSWALDO – Desliga, mãe.

LUCINDA – Vou deixar um recado. (Ao telefone) Gabriel, meu amor, onde você está? Por favor, atende esse telefone, sua avó está preocupada. (Desliga)

TAMIRES – (Para Lucinda) É, você tinha razão. O Gabriel anda triste mesmo.

OSWALDO – Por quê?

LUCINDA – (Para Tamires) Pare de provocar!

TAMIRES – Olha o que ele publica no Facebook. Só coisa de gente deprimida.

OSWALDO – O quê?

TAMIRES – Queria encontrar a tal namorada pra ver se era bonita, mas só tem coisa esquisita aqui. Vontade de sumir no mundo… Que se sente sozinho…

LUCINDA – Meu Deus, o que ele quer dizer com isso?

TAMIRES – E eu lá entendo coisa de gente de mal com a vida? Mas, pelo jeito, nem a senhora faz muita diferença.

LUCINDA – De vez em quando você fala alguma coisa certa. Viu, Oswaldo? O menino quer atenção do pai.

OSWALDO – Ele não quer ninguém por perto. Muito menos eu.

LUCINDA – Ele disse outro dia que não se lembra de você ter carregado ele quando criança.

OSWALDO – Como vai se lembrar, se era um bebê? E ele gostava mais de ficar com a Raquel. E meu pai quase nunca me pegava no colo.

LUCINDA – Mas você carrega o Thiago.

TAMIRES – E a senhora acha errado? Ele é o pai.

LUCINDA – Você sempre arruma desculpas para falar mal do Gabriel.

TAMIRES – Só não quero que ele se aproxime do meu filho.

(Eles fazem longo silêncio. Tamires pega uma revista e vai ao sofá. Oswaldo volta ao computador. Lucinda anda de um lado para outro retomando as preces. Quando Oswaldo começa a digitar, ela se incomoda.)

LUCINDA – Trabalhando de novo?

OSWALDO – Talvez o Gabriel poste alguma coisa no Facebook, tuíter, sei lá mais onde.

LUCINDA – Estou tão nervosa.

OSWALDO – Não tem nada aqui. (Para Lucinda) A senhora falou com o porteiro?

LUCINDA – Não.

OSWALDO – Ele deve ter visto o Gabriel sair. (Vai para o interfone) Seo Francisco, tudo bem? O senhor viu o Gabriel sair? Lá pelas três horas. Isso. E ele disse alguma coisa? Tá, obrigado.

LUCINDA – O que ele falou?

OSWALDO – Disse que ele saiu, mas passou na portaria como sempre: calado. E não notou nada de diferente. Era o Gabriel de todo o dia, que nem o porteiro ele cumprimenta.

TAMIRES – Que drama, gente. Daqui a pouco ele aparece. (Pega o controle da televisão para ligá-la, mas Oswaldo diz)

OSWALDO – Agora não, Tamires. Não tenho cabeça pra ouvir barulho de TV.

(Novo silêncio. Agora, mais desconcertante. Ninguém sabe direito o que fazer. Lucinda e Oswaldo estão tensos, mas Tamires faz cara de enfado)

TAMIRES – Não seria o caso de ligar pro hospital ou pro necrotério?

LUCINDA – Vire essa boca pra lá.

OSWALDO – (Para Tamires) Tenha paciência!

TAMIRES – Gente, o menino que anda deprimido sumiu. A polícia não sabe nada, o amigo doidinho dele também não, o porteiro não diz coisa com coisa, o celular está desligado. Só pode ter acontecido alguma coisa.

(Lucinda faz menção de que vai explodir, mas Oswaldo faz um sinal para que tenha calma.)

OSWALDO – (Para Tamires) Vai pro quarto dar uma olhada no Thiago. Quero falar com minha mãe.

TAMIRES – Eu disse alguma besteira?

OSWALDO – Por favor, quero conversar com ela.

TAMIRES – Vocês são muito sensíveis, pelo amor de Deus! (Tamires sai)

(Trecho da peça Verão escrita em parceria com João Nunes no primeiro semestre de 2013. Inédita.)

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