Capa_instrucao da noite

Depois de anos desaparecido, um pai volta para casa, provocando, além de surpresa, uma avalanche de sentimentos contraditórios nos membros da família. Vencedor do Prêmio SESC de Literatura por Beijando dentes, Maurício de Almeida costura com grande habilidade o drama psicológico vivenciado por cada um dos personagens de seu intrincado novelo familiar em A instrução da noite, sua estreia na Rocco. Dialogando com a literatura de Osman Lins e Raduan Nassar, o autor cria belas metáforas para falar de situações e sentimentos como perdas,traição, frustração, solidão, medo e abandono, e dos traumas que cada um carrega, muitas vezes por uma vida inteira, e que influenciam as escolhas que fazemos ao longo dessa mesma vida (José Castello).

 

 

A Instrução da Noite (Romance)

Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2017 (categoria autor estreante abaixo de 40 anos)

Capa comum

144 páginas

Editora Rocco (2016)

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Trecho de A instrução da noite na Revista Pessoa.

Trecho de A instrução da noite no Suplemento Pernambuco.

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Depois de anos desaparecido, um pai volta para casa, provocando, além de surpresa, uma avalanche de sentimentos contraditórios nos membros da família. Vencedor do Prêmio SESC de Literatura por Beijando dentes, Maurício de Almeida costura com grande habilidade o drama psicológico vivenciado por cada um dos personagens de seu intrincado novelo familiar em A instrução da noite, sua estreia na Rocco. Dialogando com a literatura de Osman Lins e Raduan Nassar, o autor cria belas metáforas para falar de situações e sentimentos como perdas,traição, frustração, solidão, medo e abandono, e dos traumas que cada um carrega, muitas vezes por uma vida inteira, e que influenciam as escolhas que fazemos ao longo dessa mesma vida.

O retorno inesperado do pai ao seio dessa família nuclear, composta pela ex-mulher e filho apenas, causa um enorme mal-estar. A trama é tecida a partir de um monólogo desse filho deixado para trás com Teresa, sua irmã, também desaparecida, com quem planejava, um dia, fugir de casa, mas que vai embora sozinha depois de um acontecimento importante em sua vida.

O narrador vê-se obrigado a ficar para cuidar da sua mãe, e se casa com Alice, enredando-se num relacionamento apático, sem maiores arroubos e desejos, o que também lhe é motivo de tristezas e frustrações. O excesso de medo, a obediência servil, o conformismo acabam por transformar o narrador em prisioneiro de um destino indesejado.

Em conversas imaginárias com Teresa, o narrador dá pistas de sua história e personalidade, marcada pelo desaparecimento do pai, e o sumiço da irmã, sua melhor amiga e única confidente. O narrador desenvolve, então, um sentimento intenso de mágoa e sente-se traído e abandonado por aquela em quem confiava e depositava a coragem que precisava para dar cabo ao seu desejo mais profundo: sair de casa, deixando para trás o seu passado, sua vida incipiente e sem grandes aventuras. Com uma narrativa intensa e cortante, Maurício de Almeida surpreende por imprimir voz própria e marcante em romance sobre o quanto o medo e a impotência podem destruir uma vida.

José Castello, crítico literário

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Entrevista ao programa Autores e livros da rádio Senado.

Entrevista ao programa Com a palavra, o livro da rádio Cultura FM.

Entrevista ao programa Espaço CBN Cultura da rádio CBN Campinas.

Entrevista ao programa Arte 1 Em Movimento do canal Arte 1.

Entrevista ao Jornal Rascunho.

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O romance de Maurício de Almeida

Por João Nunes/ Especial para o Correio Popular (15/02/2016)

Um dia antes de Maurício de Almeida completar 34 anos, no começo de janeiro, nos encontramos para esta entrevista cercados pelas aprazíveis alamedas das superquadras da Asa Sul, em Brasília. A fisionomia do garoto que conheci dez anos atrás quase não mudou e a razão talvez esteja no sofisticadíssimo senso de humor que o faz, em meio à dramaticidade da criação de um texto, rir como se estivesse brincando. Brincadeira que ele faz, por exemplo, quando lhe aviso que, mesmo sendo amigo, haverá questões escorregadias, ele pergunta se não posso adiantar o gabarito das respostas e ri deliciosamente. De onde vem esse riso? Ele ensaia um argumento ao dizer que se trata de riso nervoso. De fato, ele está nervoso (e eu também) porque nunca experimentamos os papéis de entrevistador e entrevistado. Mas ao final da conversa, quando estamos totalmente relaxados, peço-lhe para mencionar uma utopia e a resposta é desconcertante: “As pessoas obedecerem a ordem dos números da poltrona ao descer do avião”. Ri descontraído e me contagia. De onde vem esse riso?

 

Minha inquietação procede porque parece difícil conectar tal humor com uma literatura repleta de personagens marcados pela angústia e enredados na impossibilidade que geram situações aflitivas e incômodas. Esta característica se observa em Beijando Dentes (Record, 2007), livro de contos ganhador do Prêmio Sesc, e aparece de modo incisivo no primeiro romance que acaba de sair pela Rocco, A Instrução da Noite (141 págs., R$ 19,50).

 

E, enquanto ele articula a resposta, emendo duas perguntas complementares: por que você não usa humor nos escritos e de onde vem a angústia dos personagens que cria? O campineiro formado em antropologia pela Unicamp, que trabalha no Distrito Federal e sente saudade da cidade onde nasceu na mesma medida em que se diz confortável na capital do país, titubeia em um primeiro momento para, em seguida, assegurar convicto: “Vêm do mesmo lugar, a diferença está na aproximação”.

 

Convence-me que se trata de riso autoirônico e nervoso, nunca a gargalhada, riso desesperado que surge como maneira de se acercar da dor e garante que não sabe escrever humor porque leva a literatura a sério demais. “Parece que intentar o riso vira o fim em si mesmo”, sugere. Além disto, ele argumenta que não tem a sofisticação das pessoas que admira, como Woody Allen e a turma do Seinfield, “que são engraçados, mas tratam de temáticas sérias”. Admite fazer piadas de besteiras do cotidiano, mas não sabe usá-las quando escreve. “Tenho medo. Prefiro correr o risco de ser piegas, que não sou, na escrita pesada, a correr o risco de ser pueril, que eu sou, ao escrever humor pueril”.

 

Tornar-se escritor demandou desejo ou necessidade? Eu pergunto e a resposta sai clara e rápida: ingenuidade. Segundo ele, é quixotesco lançar livro (“produto defasado”) num país em crise econômica e no qual ninguém lê nem tem interesse. E desejo e necessidade são muito parecidos, pondera, mas a ingenuidade atrelada ao desejo e, uma vez incorporada, serve à necessidade também, pois se trata de ferramenta para organizar coisas. Diz compreender isso no processo da escrita e assegura estar buscando sair um pouco do próprio umbigo e entender coisas maiores do que ele. “Não acho minha experiência relevante, mas entendo que ela pode servir ao outro quando alguém se identifica com o que escrevo, vislumbra algo e encontra ali uma questão na qual nunca parou para formular”.

 

Campinas como cenário

Ter Campinas como cenário do romance, segundo ele, reflete o falar da própria aldeia, o princípio concebido pelo russo Leon Tolstói (1828-1910). Afirma ter sido necessário sair da cidade para tomar consciência de onde veio. “Por isto odeio e amo Campinas. Não há como pensar diferente, minha história de vida está lá e, mesmo vivendo fora, ela é minha referência quando tento entender um pouco de mim, cada lugar por onde passei traz minha história; aqui comprei um livro, ali experimentei um momento triste. Portanto, era inevitável ela aparecer no romance, mesmo não sendo de modo explícito”. Eu complemento dizendo que nada mais natural. Nelson Rodrigues, pernambucano assumido carioca, falava do Rio, Anton Tchecov (mesmo não sendo moscovita) escrevia sobre Moscou. Por que não Campinas? Se não está no mapa literário, no momento em que alguém a coloca como cenário de uma ficção ela passa a existir. Como a cidade começou a existir musicalmente com Carlos Gomes.

 

Maurício se espanta com a reação da irmã ao reconhecer a escultura da capa de A Instrução da Noite. Sim, qualquer campineiro que passe em frente ao Museu de Arte Contemporânea (Macc) vê a escultura das andorinhas assinada pelo artista plástico Lélio Coluccini (1910-1983), em referência a um pássaro intimamente ligado à cidade e que hoje se ausentou dela. Pois foi quando chegou a capa que ele se deu conta do quanto Campinas estava no livro. A casa do protagonista, por exemplo, se localiza no marco original da cidade na praça em frente à Igreja do Carmo. “Relutei em nomear, que é uma forma de negar, mas era Campinas. Estranho se dar conta do seu lugar no mundo; sou eu, queira ou não, arrasto o “r” do interior, nasci na Maternidade de Campinas, torço para a Ponte Preta”.

 

Campinas também lhe deu o tema da impossibilidade presente nos dois livros. Quero saber qual a raiz do interesse por esse tema? Em Campinas, ele conta, escreveu Beijando Dentes e começou A Instrução da Noite, ou seja, a gênese de ambos está bem próxima. Foi na época do final do curso de antropologia e ele não sabia o que fazer, não trabalhava, não tinha para onde ir e se sentia pressionado “por sentimentos extremos”. Hoje, assume que havia certo exagero, espécie de “hipérbole juvenil”, mas se sentia preso nas impossibilidades. O mote do romance, um homem diante de uma porta fechada sem saber como abri-la, era precisamente a situação que estava vivenciando. Curioso que no próximo livro, também romance, Maurício trabalhe justamente com o tema inverso, o da possibilidade. “Ao sair de Campinas, compreendi que poderia abrir a porta”.

 

Segundo ele, nenhum escritor gosta de explicar o próprio livro, mas admite que precisa aprender falar sobre, apesar de ser péssimo vendedor de si mesmo e de não gostar da figura do intermediário. “Leia o livro e tenha a própria visão, não a do autor; passar pelo processo da leitura permite que nos entendamos melhor”, provoca. A graça, acredita, reside no ato de ler, entender e fazer as próprias conexões com o que está lendo. Além disso, agrega, entre a leitura do autor e a do leitor há um abismo.

 

“Tenho dificuldade em dizer o que escrevi porque minhas histórias são mínimas e temo desanimar quem vai ler”. E conta um episódio recente envolvendo uma tia. Esta quis saber qual era a história do livro. A explicação: é um romance, tem um cara, a irmã dele, o pai aparece e há uma porta. “Não há reviravoltas, as ações são mínimas porque me interessa o que está atrás da ação, o que levou a ela. Neste caso, um homem que não consegue sair da casa. Veja, não tem apelo enquanto narração e fica pobre se eu tentar contar. O que me interessa é o que se passa na cabeça do personagem, entender por que ele não consegue abrir a porta”.

 

Exibicionismo e marketing

Consciente do mundo em que vive Maurício de Almeida também age de modo refratário ao exibicionismo e o marketing pessoal, dois símbolos do nosso tempo. E, mesmo sendo jovem e aberto à tecnologia, desconhece como usá-la ao seu favor. “Não tenho a menor ideia”. E cita o americano Ernest Hemingway (1899-1961), que se recusou receber pessoalmente o Nobel. No discurso lido por outra pessoa, afirmou que o que tinha para dizer estava nos livros dele. Quando o escritor morre, argumenta Maurício, fica a obra e, mesmo em vida, ele não está junto ao leitor quando este o lê; portanto, o livro tem de se sustentar por si, não depender do escritor; não interessa o que o escritor diga, interessa o que a pessoa vai ler. Tanto que gosta quando o tcheco Milan Kundera (1929) se identifica não como escritor, mas como romancista. “Mas o fato é que se inverteu a chave”, declara. Lançam livros de pessoas conhecidas que têm canais na internet com quatro milhões de acessos para serem elas mesmas; importante passou a ser a figura do autor; é ele quem leva o livro e não ao contrário.

 

Usa uma hipótese para ilustrar o que fala e imagina um youtuber de uns 15 anos escrevendo sobre um velho e aposta que os leitores não iriam gostar. Tal procedimento, segundo o escritor, “é estranho porque enjaula o autor, que escreve as mesmas coisas, eclipsa o que ele tem a dizer, pois está preso ao personagem criado”. E se indaga com uma questão que soa engraçada, porém, é muito complexa. “Vou falar o quê diante da câmera?” O desinteresse pode ser um modo negativo de ver o panorama que se apresenta, contudo, ele aborda o que seria o lado positivo da questão, pois escrever, segundo ele, permite refletir sobre a vida. “O livro é a síntese depurada de um processo de reflexão e reflexão exige tempo, paciência, dedicação e não é divertido, não faz rir”.

 

Conclui que é uma tarefa bastante ingrata pensar na possibilidade de usar as mídias sociais dentro do padrão estabelecido, pois não tem espontaneidade exigida frente à câmera, se sente inábil em relação à tecnologia e tampouco lhe interessa aprender (“me custa tanto aprender escrever”). “O veículo me serve e preciso me apropriar dele, mas a linguagem não. Como faço para que minha história mínima tenha apelo nas mídias sociais? Não sei. É uma indisponibilidade minha e eu quero achar um jeito que represente o que faço”.

 

Literatura

Maurício reafirmou que não gosta de falar sobre o que escreve e não deve gostar das autodefinições. Ainda assim, arrisco perguntar que literatura é essa de A Instrução da Noite e como a escrita dele se insere no mundo literário de hoje? Contrariando minha expectativa ele fala numa boa. Primeiro se situa: é difícil responder, porque não dá para definir qual é o mundo literário em que estamos. Depois, repete algo que a humanidade já passou em outros momentos, o de transição, especialmente com a internet. “Ela não é mais uma ferramenta, virou realidade”. Prossegue dizendo que a internet faz parte da nossa vida e causou mudanças que ainda não sabemos avaliar como isso afeta a literatura, mas é certo que esta se dilui e que, hoje, todo mundo escreve e publica. “Só que eu me sinto démodé, não ultrapassado, mas meu livro parece pedir para se desligar o celular, ninguém conseguirá lê-lo de uma vez, cada frase foi pensada com uma razão de ser”.

 

Dá uma pausa na reflexão para afirmar que não sabe onde se encaixar como escritor e sugere que citar os autores que o influenciaram talvez aponte uma pista. Alguns deles: Clarice Lispector, Osman Lins, Lobo Antunes, Roberto Piva, Hilda Hilst, “sobretudo Hilda”. Todos têm em comum a questão psicológica dos personagens. “Admiro a maneira como procuram entender a pessoa no tempo do que descrever o tempo da pessoa. Que o mundo está passando por grandes transformações a gente sabe, mas como isso se processa nas cabeças das pessoas, qual o impacto, quais os desejos e os sentimentos delas, como lidam com isso”.

 

Por fim, pergunto se, quando esboçou os primeiros escritos, ele pensava em literatura como opção ou tentativa (se der certo, ok, se não procura outra coisa)? Ambos, ele responde. Porque era uma descoberta. “Parece que bateu de cara e eu me encontrei; se não escrevesse livros e publicasse eu escreveria coisas. E ao descobrir a literatura percebi que ela me servia me ajudava pensar, apresentava questões que eu não conseguia elaborar. E, no fim deu certo, a tentativa vingou até agora”. Ao final, Maurício de Almeida faz uma autodefinição, uma entre muitas outras, mas que revela um pouco quem ele é. “Escrever é meu jeito de entender as coisas, pois penso em termos de palavras; palavras certas para coisas certas, eu organizo as coisas com as palavras”.

 

Eu encerro impressionado com a facilidade com a qual Maurício de Almeida consegue elaborar o pensamento com clareza, precisão e profundidade, do mesmo modo que exercita uma escrita densa e sem concessões. E ainda é capaz de cunhar boas frases (que se espalham por este texto), como esta que também lhe serve de definição: “Escrever continua a ser uma tentativa. Literatura será sempre uma tentativa”.

 

Pingue pongue com Maurício de Almeida

Um livro

Crônica da Casa Assassinada (Lúcio Cardoso)

Um escritor

Marcel Proust

Um personagem

A protagonista de A Paixão Segundo G.H. (Clarice Lispector)

Um grande momento da literatura

No encontro entre Pedro e o irmão André, aquele pede que este abotoe a camisa (Lavoura Arcaica, Raduan Nassar)

Uma epígrafe

De A Instrução da Noite: “Era uma tal sensação de paz: não ser mais do que um fantasma dentro de outro fantasma” (Longa Jornada noite Adentro, Eugene O’Neill)

Um projeto literário

O novo livro que estou escrevendo

O próximo passo

Escrever um livro no qual eu me entenda como dentro de um contexto maior

Uma utopia

As pessoas obedecerem a ordem dos números da poltrona ao descer do avião

Um time de futebol

Ponte Preta

 

(Publicado originalmente em Sessão de Cinema em 15/02/2016)

 

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Estado de Minas_Pensar

(Publicado no caderno Pensar do jornal Estado de Minas em 19/02/2016)

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Correio Popular_Caderno_C_21_02_16

(Publicado no Caderno C do jornal Correio Popular em 21/02/2016)

(Versão online)

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A Instrução da Noite, de Maurício de Almeida

por Emanuel Antunes

É raro conseguir ler literatura brasileira no Brasil, principalmente a atual literatura. É difícil encontrar Brasil nos livros lançados nos últimos anos. Resultado de toda uma transformação do mercado literário, isso é óbvio, mas na contra-mão vem outro movimento, um vestígio de mudança, mostrando que ainda se escreve sim a literatura que de tanto sonharmos tornou-se utopia, é de uma coragem fora do normal a adotada por Maurício de Almeida em “A Instrução da Noite”. O leitor corre o risco de ser atingido a cada frase bem calculada, de se perder em tamanho labirinto lógico criado pelo autor, tudo isso para ao chegarmos no fim da obra nos sentirmos os mais enérgicos e culpados seres humanos. Existe uma troca intensa de esforços, entre o leitor e a história e isso é água no deserto que estabeleceu-se em nosso cenário.

 

“… na sua boca cabe um inferno inteiro.” – página 104

 

O livro retrata a volta de um pai e como a família reage frente ao acontecimento. Temos como guia a visão do filho, aquele que ficou com toda a carga da família como sua responsabilidade, que tomou conta da mãe e da irmã, Teresa, a qual este dita cada erro e acerto que transpassa em sua mente. Teresa se fora e assim um novo vazio criou-se no íntimo do homem, duas partidas, a da irmã e de seu pai, que fazem do personagem uma pintura meticulosamente planejada, que o coloca na posição de qualquer leitor, que o transforma em narrador e espectador, fazendo de nós, desavisados, vítimas dessa história que utiliza uma poesia impecável. Se perde o ar entre as páginas de “A Instrução da Noite”. O álcool e a nicotina são essenciais para o desenvolvimento da trama, estão lá, presentes como oxigênio e hidrogênio, causando as mais variadas reações. Os acontecimentos seguem uma linha não convencional, somos jogados para um lado, para outro e estamos felizes com isso, ficamos encantados com a forma com que o autor se apropria do tempo e espaço e nos deixa próximos até demais do personagem, nos colocando naquela situação e nos fazendo em alguns momentos julgar, em outros apenas ouvir e obedecer. O livro sacode o ingênuo leitor e o transforma em sentinela constante, dos atos e dos homens, é mar bravio entre barcos desnorteados e isso torna a obra algo breve mas impactante, pequena mas de uma imensidão literária que nos espanta, já que acostumados com a escrita padronizada, vemos tal regresso autoral e nos espantamos.

 

“… e aquele baque que deveria ser rápido e seco reverberou num longo impacto que denunciou o insensato de minhas expectativas e explicou ser assim que as coisas se resolvem: caindo.” – página 27

 

É um livro que vai até o mais profundo pensamento humano e revela o que nele existe, que não tem medo de se apossar de temas desconcertantes muito menos de invadir o inabitável do ser, é belo e massacrante e o modo como isso é posto por Maurício de Almeida transforma a história em um marco. A obra é dividida em três partes: Alcoólica, Baldio e Noturno. Entre essas vemos o talento do autor ao colocar tanto significado nos espaços, no que sobra para alguns, para a escrita de Almeida é lacuna necessária para se preencher. Nós sabemos que o livro é de uma singularidade sem tamanho ao notarmos, quase no meio deste, que entre um “tudo bem?” e um “sim, pai.” existem oceanos a serem explorados, e isso é feito com uma maestria dificilmente vista. O comando principal da obra consegue nos transportar para lugares nunca vistos, incrível e poética é a história retratada.

 

“… o fato de que fui vítima de uma esperança risível: acreditar que estava prestes a algo que jamais terei.” – página 23

 

A caracterização dos personagens ocorre de forma gradual, não encontramos aquela feição pré-estabelecida, jogada para o autor abarcar e só, nada disso, vemos personagens flutuando frente a visão do ledor e nós conseguimos captar a medida em que o livro transcorre características, vícios e desejos. Uma redoma se cria no enredo de “A Instrução da Noite”, cobertura de realidade e receio, de medo e bravura, de um misto de sentimentos que acaba por deixar o leitor embriagado, por tanta verdade exposta em um só lugar.

 

“… o tempo é hiperbólico no abandono.” – página 24

 

Os anseios humanos desfilam e castigam os personagens, os temores e tais vontades são combustíveis necessários para termos tamanha narrativa. Reafirmo, Maurício de Almeida nos presente-a com o novo calcado no passado, a forma de se fazer literatura inspirada nas Clarices e Buarques marca-ponto na forma como o livro foi estruturado e isso agrada qualquer admirador da arte crua e verdeira, sem os modismos impostos pela indústria ou seu modelo pré-fabricado, é uma obra isenta de medos, mesmo os tratando, não apresenta falhas evidentes, ao mesmo tempo que invado o íntimo do homem e o estraçalha. Impecável e brilhante, uma teia de histórias que ao se unirem transformam o livro em algo inesquecível.

(Publicado originalmente no Beco Literário)

 

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Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida

por Rafael Gallo

“Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave
(com seus muitíssimos dentes)
não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]”

 

Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.

 

Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.

 

Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.

 

Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.

 

Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.

 

Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:

 

“Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso
(certamente os sapatos tamborilando o chão)
uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina
– tudo bem?
ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz
– sim, pai.”

 

A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.

 

Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.

(Publicado originalmente no Diversos Afins)

 

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Drama familiar é o tema do novo romance de Maurício de Almeida
Dialogando com a literatura de Osman Lins e Raduan Nassar, Maurício cria metáforas para trabalhar os sentimentos mais densos que o homem carrega durante a vida

 

Por Pedro Lira

 

Perda, traição, abandono e frustração. Esses são alguns dos sentimentos tratados por Maurício de Almeida em seu segundo livro, A instrução da noite. A trama familiar gira em torno de um homem comum, em uma vida comum, com seus problemas comuns, mas tem sua realidade abalada quando o pai, há muito desaparecido, retorna com uma demanda que exige do protagonista lidar com seus fantasmas e frustrações do passado.

 

Dialogando com a literatura de Osman Lins e Raduan Nassar, Maurício cria metáforas para trabalhar os sentimentos mais densos que o homem carrega durante a vida, influenciando as escolhas mais importantes do indivíduo.

 

O antropólogo Maurício de Almeida, paulista, morador de Brasília há seis anos, promete surpreender mais uma vez com seu estilo de escrita. Envolvido na literatura desde jovem, se percebeu escritor com os primeiros poemas e letras de música que escreveu quando ainda adolescente. “Eu frequentava sebos todos os dias. Tinha um hábito de ler muito e também escutar músicas”, conta. “Acho que como todo escritor, a coisa começou ali.”

 

Sua primeira publicação, Beijando dentes, ganhou em 2007 o prêmio Sesc de literatura na categoria contos. O projeto do livro surgiu em uma oficina de literatura quando Maurício passou pelo momento crítico de todo escritor. “Foi ali que comecei a produzir com consciência a literatura. A ler e entender como as coisas funcionavam”, explica.

 

Duas perguntas // Maurício de Almeida

Quais são os planos para o futuro após o lançamento?

 

Eu já estou com um projeto novo em andamento. Eu consegui uma bolsa da Biblioteca Nacional para escrever meu próximo livro então já adianto que meu novo romance deve estar pronto no meio do ano. Além disso ainda continuo escrevendo para teatro. No mês que vem, uma peça escrita por mim e um amigo vai receber uma leitura dramática lá em Campinas.

 

Como você acha que está a situação do mercado de literatura nacional?

 

Ao mesmo tempo que o país está passando por uma crise política e econômica, que tem resultado no fechamento de editoras grandes, está acontecendo uma abertura para uma nova literatura. O número de publicações de pequenos autores, sejam em editoras menores ou internet. Isso acaba gerando espaço para novos gêneros também. Muitos poetas estão surgindo, contistas. São gêneros que antes não tinham o valor bem reconhecido e agora estão aparecendo mais. Além disso, esse efeito tem tirado a literatura do eixo Rio – São Paulo. Eu observo autores do centro-oeste, nordeste, norte e outros. Pessoas muito boas que não teriam esse espaço nos mercados maiores que sempre fomos acostumados.

(Publicado originalmente no Correio Braziliense)

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Maurício de Almeida faz narrativa sobre a figura paterna em A Instrução da Noite

O novo romance do Vencedor do Prêmio Sesc mostra uma narrativa curta e densa

por Diogo Guedes

 

O sábado que centra a narrativa do livro A Instrução da Noite (Rocco), do escritor paulista Maurício de Almeida, é “em tudo diverso devido a alguma coisa fora do lugar, violentamente fora do lugar”. O narrador da história, um jovem, vê o pai voltar para a sua casa depois de anos ausente sem nenhuma explicação. Mais do que uma surpresa, a figura paterna é uma intromissão ousada, uma assombração de ares densos e motivos misteriosos.

 

Ao longo da curta narrativa, o jovem vai se dirigindo a sua irmã, Teresa, falando sobre a ausência e a presença indesejada e repentina do pai. O tempo, afirma o romance, é hiperbólico no abandono: o pai partiu, teve outro filho e família, e reaparece como se nada tivesse sido alterado. Essa simples questão põe o protagonista em desequilíbrio. Ele, agora o homem da casa, vê a mãe servir café depois do almoço para o antigo companheiro e, principalmente, se incomoda com a falsa naturalidade de todos os gestos – inclusive o de ser chamado de “filho” – daquele pai que se instala “por toda a sala” e não se desculpa por nada.

 

Vencedor do Prêmio Sesc com o seu primeiro livro, Beijando Dentes, Maurício cria uma narrativa de prosa densa, com um ritmo que transmite a calma e o desespero da sua figura central. Como várias narrativas icônicas recentes, A Instrução da Noite é sobre encontrar a sombra do pai – não para cometer o parricídio, mas talvez para se encontrar com o peso de assumir o posto, viver uma culpa que não é sua. É um livro sobre ficar: não há nada mais assustador do que precisar estar imóvel enquanto todos podem se deslocar.

(Publicado originalmente no Jornal do Commercio de Recife)

 

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O drama patriarcal de Raduan Nassar e Osman Lins ganha nova voz na literatura brasileira

Maurício de Almeida prova ser um autor marcante, ao examinar os efeitos contundentes do retorno inesperado de um pai à família a qual abandonou

 

por Sérgio Tavares

 

Há uma visão romântica de que escrever um livro é lançar luz sobre uma ideia. Contudo, nem todas as histórias ocorrem sob a égide do alvor. Há enredos que nascem e ganham forma entre o desmaio vespertino das horas e a total desclaridade. Há autores que necessitam se acolher na madrugada alta e esquadrinhar a escrita feito noctâmbulos de uma literatura que viceja na sombra da própria sombra.

 

Em “A instrução da noite”, Mau­rí­cio de Almeida opta pela travessia de um território umbroso. O romance é um corte de dois tempos. O de­senrolar cronológico das horas mais escuras de um dia e um passado que se arremessa com brutalidade contra este presente, causando uma permanência atordoante, um desmantelamento temporal onde as lembranças coexistem com o imediato.

 

O motivo desta fratura é o regresso imprevisto de um pai à família que abandonou igualmente sem explicação. O abalo do reaparecimento desata um fluxo caudaloso de sentimentos desenterrados, o afogamento numa mágoa nutrida pelas consequências incontornáveis daquela ausência e, ademais, da dúvida sobre a real motivação do retorno muitos anos depois de completa incomunicabilidade.

 

Ao filho cabe a condução da trama. Um homem moldado por privações, obrigado a abrir mão da própria vida para responder pelos deveres do pai. Nele está a consciência narrativa. Uma voz dotada de uma inflexão sufocada e sufocante, que tentando ser ouvida por Teresa, a irmã que há tempos fugiu de casa, faz desta impossibilidade o álcool para enfrentar o caos que se estabelece dentro de si.

 

É dessa jornada anímica, incursionando por entre resgates da infância e escombros do esboroamento familiar, que o personagem compõe um retrato doméstico onde todos são “fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”.

 

O pai constituído de uma “espécie de força inescapável”, da qual, contrariados, todos orbitam ao redor, envolvidos por um estado de tensão. A mãe apática, de uma nulidade doentia, como que partidária do alheamento. A irmã Teresa, pela qual o narrador guarda um misto de inveja e afeto. E Alice, a esposa, que devaneia sentidos para uma existência solúvel feito a chuva persistente que singra a noite.

 

Tocando-os de maneira física e subjetiva, o personagem caminha por esse espaço que abriga outros e os desaparece, sendo ele próprio um estrangeiro desta con­dição, um espectro incapaz de traduzir suas ações diante do inesperado reencontro e da nova porta que se revela disponível, a qual oferece uma chave de muitos dentes, uma chance para seguir o curso da nova manhã ou se manter no rumo insone do ontem eterno.

 

Maurício de Almeida, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2007, com a coletânea “Beijando dentes”, retoma uma temática que tencionava alguns daqueles contos, na qual a relação entre entes familiares incorria de situações e de sensações adversas, do desalento à melancolia. A prosa seca e fluente, mobilizada por uma tessitura singular, inventiva, formada por intervenções e comentários incidentais, recebe um cuidado especial, maduro, uma preocupação pelo requinte das palavras e o encaixe das frases, atingido, assim, a densidade poética, uma beleza imprópria.

 

Pois, se para o leitor se torna irresistível o ritmo e a força do relato, o romance explora o mais elementar dos conflitos humanos, o drama patriarcal em que, de modo simbólico ou não, o filho é levado a assassinar o pai para encerrar um estágio preliminar da vida, vencer o duelo com seus medos, suas angústias, suas frustrações, escorado por uma perspectiva de mundo igualmente pueril e adulta. Tramas que se tornaram referenciais nas literaturas de autores brasileiros como Raduan Nassar, Osman Lins e Lúcio Cardoso.

 

No entanto, as semelhanças param na preferência do tema. Maurício de Almeida não é um imitador, longe disso. Tem uma voz singular e potente que, mesmo no segundo livro, já deixa uma marca, o reconhecimento de um estilo próprio, inconfundível. Um escritor que imprime em suas páginas uma rutilância artística, mesmo ao se embrenhar na mais profunda escuridão.

(Publicado originalmente no Jornal Opção de Goiânia)

 

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Inventário de uma ausência

Por Ronaldo Cagiano

A instrução da noite, novo romance do premiado escritor Maurício de Oliveira, remete-nos àquela sensação catártica e dilacerante de Carta ao pai, de Kafka, no qual, em clave autobiográfica, o autor tcheco faz um doloroso percurso pelo passado de silêncios e ausências na relação com um pai autoritário e que relegou o filho a uma vivência marcada pela frustração e pelo descrédito.

 

Ainda que aqui o autor paulista trate de matéria ficcional, seu personagem também guarda (in)tensa analogia com esse mesmo território penoso e dilacerante, porém alvejando uma convivência marcada pelo espectro da ausência e do silêncio, tão torturante quanto uma presença totalitária e demolidora.

 

O enredo dessa novela centra-se no retorno de um pai, após anos de abandono da família, quando se retirou sem qualquer explicação, deixando como rastro o luto de uma escuridão abissal na alma dos filhos, uma sombra a camuflar a razão que teria provocado essa ruptura, desencadeando uma eterna incógnita para esse passivo afetivo.

 

Tão forte (e desconcertante) quando o desaparecimento foi a reaparição, ambos abruptas, deflagrando um estado eruptivo de sentimentos contraditórios, que emergiam no caudal de lembranças e recordações, em razão do fosso causado pelo isolamento.

 

O personagem central (não nomeado) é um filho que tomou as rédeas da casa tão logo o pai defenestrou-se de suas vidas. Recorrendo ao fluxo de memória e consciência, ele vai deslindando, via epistolar, à sua irmã Teresa (que há pouco também fugiu de casa), as mágoas e a opressão interiores provocadas pela falta paterna, que cavou o imenso fosso em suas vidas, dilacerado por esses anos de incorrigível vazio, em que a família se desconstruía sob a força imponderável de uma realidade sufocante.

 

A narrativa, em dois tempos, engendra um poderoso relato centrado do reencontro entre os dois, cuja carga psicológica é explorada com extremo rigor e destreza na linguagem, desencadeando reminiscências torturantes e recomposição doídas de cenas, flashes e episódios da infância, quando o fantasma dessa orfandade em vida cada dia os assombrava mais, tutelado por outras ausências. De um lado, a da própria mãe, insularizada em sua própria apatia, abduzida pela televisão e por outro, a da esposa Alice, com as quais tentava compartilhar seus sofrimentos, porém,  alienadas dessa dor, mais ajudavam a projetar esse estado de incomunicabilidade e profunda melancolia.

 

A volta do pai não reduz as fundas cicatrizes esculpidas pelo golpe da sua partida e, ao colocá-los, ao final, frente a frente num encontro (ou ajuste) de contas numa mesa de bar, expõe, de forma visceral, as fragilidades psicológicas de um e a penúria financeira e material de outro, e a narrativa vai se amalgamando com peculiares recursos formais, adotando-se períodos sem maiúsculas ou pontos finais, como numa visão fragmentária do próprio caos instalado.

 

Durante toda a trama percebe-se um tom claustrofóbico, mas intrinsecamente humano, em que o autor explora com sutileza a severa angústia que perpassa toda uma vivência frustrada e sem volta. Trata-se de um romance que mergulha na brutalidade poética própria das circunstâncias vividas pelo protagonista, em que o caos interior atinge um momento de rara e trágica beleza. Algo que se assemelha aos romances de atmosfera, em que menos interessa o enredo e mais a força da linguagem, assim como nos legaram uma Clarice Lispector, uma Virginia Woolf ou um Raduan Nassar que, como Mauricio de Almeida, chafurdam nos escuros labirintos existenciais com o facho luminoso e candente de uma ficção cirúrgica e penetrante, para inventariar as perdas e danos decorrentes dos tempestuosos conflitos e relações, de pequenos dramas ou de grandes dilemas em que personagens são condenados e um eterno naufrágio.

(Publicado originalmente no Amálgama)

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