1. Amores, truques e outras versões ou o amor nos tempos do tinder

 

Amores, truques e outras versões é um livro do escritor Alex Andrade, que já tem em seu currículo o romance Longe dos Olhos, os livros de contos A suspeita da imperfeição e Poema, e os infantis O pequeno Hamlet e A galinha malcriada. Muito embora não tenha lido ainda esses trabalhos anteriores do autor, a experiência acumulada aflora no livro que comentarei.

 

Dois elementos me chamaram atenção em Amores, truques e outras versões: o tema e a estrutura. Não são poucos os livros em que percebo não haver relação entre conteúdo e forma, como se escrever fosse um dom, uma iluminada psicografia. No entanto, ciente do ofício, Alex Andrade matutou sobre o tema que gostaria de trabalhar (as relações afetivas na contemporaneidade altamente tecnológica) e a melhor forma de explorá-lo (uma série de primeiras pessoas que fornecem as diversas perspectivas de uma mesma situação).

 

Pretendo apresentar algumas impressões que a relação entre esses elementos me causou. Muito antes de uma resenha propriamente dita, reproduzo anotações que fiz durante a leitura. E, por ser assim, seguirei as três seções que compõem o livro: Truques, Outras versões e Amores.

 

2. Truques ou como deixei de me preocupar e passei a amar a bomba

 

“Sou escravo dos meus desejos e dependente da vida tecnológica”

 

A leitura de Truques reacendeu certo questionamento que levantei em uma conversa sobre aplicativos de encontros: por que evitarmos o acaso? Ao desejo (talvez nossa necessidade primeira), o acaso é uma espera interminável que causa o horror de não ser realizado, mas também é a surpresa da satisfação. A partir da leitura de Amores, truques e outras versões, concluo que a forma obsessiva com a qual se evita o acaso é o fato de que a tecnologia promete (e de certa forma cumpre) saciar nossas necessidades no momento mesmo em que as sentimos. Decorre que, se ao mesmo tempo são as necessidades que nos fazem humanos, elas também são capazes de nos tornarem monstros quando vivemos em função delas.

 

As relações estabelecidas nessa primeira parte do livro correspondem às relações que percebemos cada vez mais vigentes no mundo doentiamente tecnológico. Ao invés de abraçarmos o acaso, tendemos a domá-lo – e um encontro casual (que, afinal, corre o risco de jamais acontecer) é substituído pelo encontro arranjado por um aplicativo de celular que calcula afinidades e distâncias. A tecnologia não tem todas as respostas mesmo que insista nessa propaganda, mas, por não suportamos a óbvia aleatoriedade da vida, cremos e agradecemos à tecnologia em terabytes de améns.

 

A combinação de cálculo do acaso e a autoritária demanda do desejo (sendo o sexo a forma mais básica e direta desse desejo, que, de quebra, implica em outros afagos no ego) é o mote que movimenta o livro. São inúmeros encontros promovidos por um aplicativo de celular que não saciam os personagens e os viciam não apenas no prazer do corpo, mas também na artimanha da sedução, na adrenalina da conquista, na realização do furtivo.

 

Na primeira parte do livro, os encontros são muitos, o sexo sempre correspondendo à ânsia de uma necessidade imediatista e, consequência inevitável, passa a prescindir de nomes e rostos. Torna-se uma coisa em si – e talvez seja justamente a saciedade imediata que simplifique a necessidade a um fim em si mesmo. Não bastasse a similaridade desses encontros (que mais poderíamos esperar da mecanização dos sentimentos?), seus desfechos são os mesmos: o vazio (pois não há processo ou amadurecimento nesses encontros, não há passagem) e o próximo encontro.

 

3. Outras versões ou um busto de Jano sem rosto

 

A segunda parte nos coloca face a face com o reverso do vazio ao qual somos jogados na primeira parte do livro. Ponto alto no que diz respeito à estruturação do romance, convém relatar que esse movimento da narrativa é essencial ao revelar que, vítimas do ímpeto desfigurador que é a tecnologia, os novos personagens confundem-se aos primeiros; confundem-se também seus nomes e eles não reconhecem seus rostos de tal forma que Jano perde suas expressões, desfazendo todas as chances de travessias ao comprovar que o reverso é tão ou mais vazio que o verso. Jano sem rosto: símbolo de um fim em si mesmo, pois, sem referência, não há travessia, processos ou amadurecimentos. Retrocedemos ao início do livro e, mesmo que o vejamos de outra forma, repisamos sempre o próximo encontro.

 

Reescrevo: não há vítimas do ímpeto desfigurador que é a tecnologia. A pólvora foi inventada antes das armas de fogo e uma coisa não está de forma alguma ligada a outra de forma causal. Portanto, antes de demonizar a tecnologia, a questão que deve ser posta não é exatamente o que, mas o como: o constrangimento de Oppenheimer, a carta de arrependimento de Kalashnikov, Alfred Nobel lendo em seu próprio obituário o epíteto de mercador da morte. O livro de Alex Andrade é sagaz em se dedicar muito mais aos usos que os personagens fazem da tecnologia do que simplificar a questão ao vitimizá-los. É claro aos personagens (e ao autor) que celulares e laptops não os transformam naquilo que se tornaram (e contra o que lutam), mas são meios que os possibilitaram ser o que se tornaram (e contra o que lutam, pois sentem a angústia destrutiva do que fazem).

 

E o que se tornaram é imagem desfeita em frente e verso, não sabem para onde ir nem para quem olham. Pois, se em algum momento os personagens da primeira parte tentam se (e nos) convencer de que estão no controle e que, portanto, abrir mão do controle é antes uma opção e não uma impossibilidade (a voz do vício), Outras versões desfaz essa certeza ao nos apresentar o outro lado dessa moeda. E nela vemos que está perdido o chão da realidade e não há mais referência ou limite que sirva de parâmetro – e todos respondem de forma banal ao desejo. O amor é desfigurado e ridicularizado e o sexo é um jogo por meio do qual os personagens reagem com o que há de mais instintivo no homem: a vaidade (muito embora não exista um rosto frente ao espelho).

 

4. Amores ou quando não enxergamos o óbvio

 

E nesse jogo ao qual estão rendidos, a falta de parâmetros e referências fazem-se regras – e, ironias da vida, estão à mercê do incontrolável. Seria deus o acaso? Onipresença e onipotência que nos submete, a tecnologia não tem todas as respostas, e, ao descobrirem essa óbvia verdade, um desespero avassala os personagens como se descobrissem a própria morte de deus ou sua existência plena, onipresente e onipotente em forma de acaso. Que, afinal, os faz o que somos, estupidamente solitários e despidos de respostas, indefesos frente ao destino em tudo incontrolável.

 

No entanto, o hábito é algo que construído, e o exercício de evitar o acaso é tão eficiente que, ao se depararem com o próprio, eles não o veem. Seria o amor o acaso? Talvez estejamos sendo sistematicamente cegados para ele ao nos devotarmos tanto ao desejo. Ademais, não seria o amor também uma necessidade, talvez a maior delas? Mas seu preço é alto, um fiar demorado de tramas, um exercício longo demais para uma sociedade que não dorme e que não sonha por não haver tempo, nunca há tempo porque sempre uma outra novidade que, afinal, perpetua o mesmo vazio – até o próximo encontro. E a sensação é que os personagens (suspeito que mesmo nós) não reconhecem o acaso (ou o amor ou o deus) quando o encontram e só se reconhecem pelas aventuras que insistem ter para ter o que contar.

 

Amores, Truques e outras versões

Alex Andrade

Confraria do Vento

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