Numa primeira leitura, o novo livro de Carlos Henrique Schroeder, As fantasias eletivas, parece lacunar. Os capítulos pequenos apresentam muito pouco sobre os personagens. Sabemos que Renê é recepcionista noturno de um hotel no Balneário Camboriú e que tenta continuar com a vida depois de um passado adverso e uma tentativa frustrada de suicídio. Em sua rotina de trabalho, na qual se dedica quase obsessivamente a limpar o tampo de granito da recepção com álcool, Renê trava amizade com um travesti, Copi. Sobre este temos notícias mais esparsas: a família não o aceita e, entre toda sorte de clientes e amantes, dedica-se à fotografia e à literatura.

No mais, não temos outras informações sobre esses personagens. Nem pregressas, tampouco atuais: no desenrolar da história, não sabemos exatamente quem é Maria e como se estabeleceu o jantar romântico com Renê, assim como não sabemos a razão de Renê ter levado uma facada; não sabemos como, apesar da ojeriza que expressa constantemente, Renê se aproximou de Copi a ponto de trocarem visitas e taças de vinho numa amizade improvável.

De forma geral, o livro quase se limita a sugerir personagens e ações.

No entanto, ainda que de forma fragmentada, ao estabelecer contexto e personagens, ocorre um evento fatídico envolvendo Copi, que remete Renê a situações anteriores, principalmente uma noite de conversa entre eles. A recuperação desse passado recente o/nos faz ter acesso não apenas a um conhecimento mais profundo de quem é Copi, mas também à obra do travesti: abre-se um livro dentro do livro.

“A solidão das coisas” e “Poesia completa de Copi” são, respectivamente, fotografias seguidas de pequenas descrições sobre diversos tipos de solidão e a antologia completa de seus poemas. Adentramos, assim, o brevíssimo espólio de Copi, que, humorado e melancólico ao mesmo tempo, reafirma a persona apresentada anteriormente.

O capítulo final, que dá título ao livro, retoma a história de Renê e Copi e, tal como anteriormente, propõe um encerramento fragmentado, mas que faz jus ao nome. Afinal, nesses curtíssimos desfechos, a intenção parece ser desmontar para reafirmar os mecanismos a partir dos quais são criadas as fantasias desses personagens. A partir de fragmentos (quase retratos) de eventos reais e concretos, notamos como os personagens optam por criarem suas fantasias ou tomá-los simplesmente pelo que são: a vida.

A sensação ao término da leitura é de ausência. Parece ao leitor que o livro é, na verdade, um projeto de livro, e que as ações descritas são guias a serem preenchidas e continuadas. No entanto, o livro se encerra dessa forma, como se se dedicasse à superfície dos acontecimentos e às grandes elipses que pecam ao nos deixar apenas espaços não preenchidos. Fica uma sensação de falta.

Mas é na parte central do livro, o quase-monólogo de Copi rememorado por Renê, que encontramos a chave para o romance, principalmente quando ela diz:

“O que me move para a fotografia são as similaridades com a literatura. A fotografia quer congelar um instante, e a literatura, recriá-lo, e ambas têm essa capacidade de permitir uma outra visão das coisas.”

Nesse sentido, portanto, As fantasias eletivas é um álbum de fotografias. O que sabemos sobre Renê, sua vida pregressa e seu presente, as humilhações e rotina, é narrado lacunarmente pois são retratos de sua vida, instantes congelados e recriados por ele. Por isso, se num primeiro momento o livro parece superficial, uma leitura mais atenta propõe que, na verdade, sua estrutura é a premissa dessa paridade entre literatura e fotografia. Ou seja, os capítulos pequenos e aparentemente descontinuados parecem fotografias. Além disso, parecem também terem sido escritos tal como o processo criativo de Copi:

“Foi a fotografia que me mostrou o que é literatura. […] E aquela fotografia me pareceu tão cheia de possibilidades e metáforas, imaginei tantas coisas, criei pequenas histórias a partir dela, e gostaria de repetir mais uma vez aquele instante. E passei a fazer isso, criar histórias a partir das fotografias.”

Assim, para além das fotos de Copi, que retratam suas solidões e as histórias que cria a partir dessas imagens, a primeira parte do livro (“S de sangue”) é também e ao seu modo um livro de fotos: temos apenas registros de eventos da vida de Renê (o encontro com Maria, a agressão que sofre e que o remete a uma agressão passada, o episódio relativo à ex-mulher e o filho) e também de Copi (a família na argentina, os amantes, o encontro com Renê).

Ademais, o que há de lacunar no livro explicita também o que é lacunar nesses personagens. Se por um lado temos Copi, um travesti escritor (decifrado por Altair Martins na orelha do livro como referência ao escritor argentino Raul Taborda Damonte) que, muito embora aparente resolução, é subjugada pela solidão, por outro lado acompanhamos Renê, um ser solitário e soturno, errante numa luta constante contra e pela própria vida. É como se os dois vivessem em espasmos, criando e/ou buscando as fantasias que os permitem (ou não) continuar.

(Publicado originalmente em Amálgama em 30/10/2014)

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